domingo, novembro 16, 2014

Flores no meio do mar

Visitámos a ilha das Flores, nos Açores, em junho de 2014. Ficámos numa aldeia, para mim mágica, chamada Aldeia da Cuada, isolada numa ilha, já por si, situada numa das áreas mais remotas da Europa.

Antes da viagem, li que a Cuada tinha sido abandonada nos anos 60 do século passado pelos seus habitantes que emigraram para a América à procura de uma vida melhor. As silvas invadiram, então, os campos e tombaram as pedras das casas e dos muros. As madeiras das portas e das janelas apodreceram. As telhas começaram a cair e os telhados a ruir.

Hoje são as pessoas com uma vida boa que ficam alojadas na aldeia, à procura do que os seus habitantes abandonaram, isto é, de isolamento, tranquilidade, simplicidade e das raízes que nos ligam a todos à terra e à natureza.

Graças a um senhor chamado Carlos Silva e à sua esposa Teotónia, a aldeia é hoje como era: não circula qualquer veículo motorizado, caminha-se por passeios de calhaus irregulares, as paredes das casas mantêm-se de pedra, fieis ao traço da arquitetura rural da ilha, há vacas nos campos e por vezes cruzámo-nos com galinhas e gatos.



Por dentro, as casas têm comodidades que não existiam no passado, nomeadamente cozinha equipada e casa de banho. Todavia, recuámos igualmente no tempo ao caminharmos sobre um soalho de madeira que range; ao sentarmo-nos em cadeiras de verga onde há almofadas coloridas feitas por mãos populares; ao repararmos nas colchas de lã artesanais ou ao encontrarmos móveis parecidos com os que havia na casa dos nossos avós.

Foi nesta aldeia, situada num planalto sobranceiro ao oceano, que ficámos os quatro dias que passámos no extremo mais ocidental da Europa. Destinaram-nos a casa mais distante, um antigo palheiro de nome Fátima que, à semelhança das outras casas, mantém o nome da sua antiga dona.

São quinze casas relativamente dispersas, separadas por prados e muros de pedra, com direito a jardim próprio. O nosso, onde gostávamos de ler e de nos sentar a comer queijo delicioso das Flores, situava-se à beira do precipício sobranceiro ao mar. Do outro lado, tínhamos vista para a aldeia toda e para as montanhas e fios de água que por si escorrem.

Por tudo isto, sentia-me pequenina naquela casa, aconchegando-me bem à noite na cama, atenta a todos os sons que não estou habituada a ouvir, sons tão simples como o vento, o mar, a chuva ou o bramido misterioso de umas aves chamadas cagarros.

A VISITAR



Quem viaja para as Flores procura calma, silêncio, contacto com a natureza, paisagens de cortar o fôlego e percursos bem marcados para caminhar. Há várias cascatas e lagoas para descobrir, uma grande abundância de floresta Laurissilva, arbustos retorcidos e zonas de musgo espesso como nunca vi, que temos medo de pisar para não estragar.

Tome, pois, nota dos seguintes locais, mas lembre-se que a ilha é, no seu todo, paradisíaca valendo a pena percorrê-la de carro de uma ponta à outra. Tenha, no entanto, cuidado para não atropelar nenhum dos muitos coelhos que correm desvairados pela estrada.

Poço da Alagoínha

Comparada frequentemente ao Jardim do Éden, a Alagoínha esconde-se dentro de uma floresta que terá de atravessar a pé. São cerca de 20 minutos por um trilho de pedras irregulares, entre árvores altas, ao som dos passarinhos e do murmúrio de água a correr. A experiência faz parte do suspense para o que vai encontrar no final: dezenas de pequenas cascatas que brotam de um monte cheio de vegetação ao encontro de um lago que espelha toda a beleza envolvente.


Lagoas

Nas Flores há sete crateras vulcânicas que se transformaram em lagoas, todas bem sinalizadas ao longo da estrada. As nossas preferidas foram a Lagoa Comprida e, ao seu lado, a Lagoa Negra (ou Funda), mas as restantes oferecem igual encanto.




A VISITAR SE HOUVER TEMPO

  • Poço do Bacalhau: uma cascata perto da localidade da Fajã Grande;
  • Rocha dos Bordões: um morro basáltico invulgar;
  • Farol da Ponta do Albernaz: o farol mais ocidental da Europa;
  • Gruta dos Enxaréus: uma grande cavidade à beira-mar, outrora esconderijo de piratas, visitável apenas em passeios de barco organizados.



Em cima, à esquerda: Poço do Bacalhau. À direita: trilho em Ponta Delgada.
Em baixo: Rocha dos Bordões

CAMINHADAS

Poderá encontrar toda a informação de que precisa sobre os quatro trilhos marcados que existem nas Flores aqui. Uma vez que o nosso tempo era limitado, não percorremos nenhum deles na totalidade. Fizemos, todavia, parcialmente dois que nos ficaram na memória.

O primeiro foi o trilho Fajã de Lopo Vaz. Trata-se de um percurso sempre a descer até à fajã, situada bem no fundo de uma vertente verde escarpada. Receosos da subida, caminhamos apenas até ao ponto donde se avista a fajã, onde nos sentámos, rendidos à serenidade e à beleza envolventes.

O segundo foi o trilho que parte da Ponta da Fajã em direção a Ponta Delgada, ao longo de uma falésia junto ao mar, com vistas soberbas sobre a Fajã Grande e o Ilhéu de Monchique, o último pontinho de terra da Europa.



Em cima, à esquerda: trilho Fajã de Lopo Vaz. À direita: trilho que conduz a Ponta Delgada.
Em baixo: Vista sobre a Ponta da Fajá e a Fajã Grande

RESTAURANTES

Na Fajãzinha: Restaurante Pôr do Sol. Aberto só ao jantar, no dia em que fomos, havia um buffet com comida tradicional dos Açores e das Flores em particular. Não o servem sempre, só quando recebem reservas de grupos. Naquele dia, havia uma mesa grande com turistas alemães e outra com os familiares de uns irmãos de visita à sua ilha natal.

Em Ponta Delgada: O Pescador. A especialidade é peixe fresco, pescado no próprio dia pelo filho do dono do restaurante. Excelente na sua simplicidade.

Na Fajã Grande: Restaurantes Maresia e Zona Balnear. No Maresia, que tem uma esplanada rente ao mar e uma decoração alternativa com sofás usados, comemos muito bem. Vá, no entanto, preparado com bastante dinheiro, já que o Multibanco mais perto fica a cerca de 20 km. No Zona Balnear, apesar de nos terem apresentado um dos piores bifes de sempre, comemos uns filetes de abrótea frescos que nunca esqueceremos. Convém, pois, perguntar à entrada se têm peixe fresco, como aliás o deve fazer em qualquer restaurante a que vá nos Açores.

Ilhéu de Monchique, o último pontinho de terra da Europa

E porque a conversa conduz a novas descobertas...

No restaurante Pôr do Sol, conhecemos dois irmãos septuagenários que emigraram para a América quando ainda eram crianças. Contaram-nos, num português inseguro mas orgulhoso, que tinham passado praticamente toda a vida do outro lado do Atlântico, mas que voltavam às Flores pelo menos uma vez por ano para reencontrar familiares e matar saudades. Irradiavam felicidade numa mesa comprida onde sorriam tanto pessoas de muita idade como outras ainda jovens.

No decurso do jantar, o dono do restaurante perguntou-nos se não queríamos ir a seguir ao Bodo, no Império da Fajãzinha. “Mas o que é que se vai passar lá?” - perguntámos nós curiosos. “As pessoas rezam e, no final, cantam e tocam. É muito bonito.” - disse ele. Perdemos essa parte, porque chegámos atrasados. Ainda fomos, porém, a tempo de beber um licor de anis oferecido por um dos irmãos emigrantes, que ficou todo contente por nos reencontrar e ainda mais por aceitarmos a bebida. Por acanhamento, não ficámos para comer os doces nem para jogar ao bingo com o resto da população da aldeia, pela noite fora. Fomos, antes, para a Cuada ouvir os cagarros, bem aconchegadinhos na cama.





Curiosidade: Em 1452, os navegadores portugueses Diogo de Teive e o seu filho, João de Teive, descobriram no meio do Oceano Atlântico umas ilhas a que chamaram Flores. Nessa altura, eram umas flores de cor amarela, os “cubres”, que cobriam abundantemente as suas vertentes escarpadas. Hoje em dia, predominam as hortênsias que, apesar de serem muito apreciadas pelos turistas, são consideradas uma praga pelos açorianos.

Veja também

8 comentários:

  1. Texto e fotos bem elucidativos da beleza destas ilhas. Dá vontade de voar até elas. Aliás, a vaquinha da segunda foto parece desafiar-nos: venham até cá, gosto de ver gente a passar

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  2. Olá

    Vivi na Flores por duas vezes acompanhando o meu pai nas comissões de Marinha. Entre 1963 e 1965 e entre 1978 e 1980.
    Queria mostrar à minha filha o Paraíso na Terra mas tenho a sensação de que é caro.
    Será que me podem sugerir um modo económico ( se é que existe) de ir e ficar 3 ou 4 dias?

    Bem hajam.

    Paulo Ramos

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    1. Boa noite

      Gostei do seu comentário e saber que a ilha lhe deixou saudades...
      Sou a Telma, a pessoa que de momento explora as casas da antiga ex Estação Rádio Naval, temos um ambiente acolhedor e preços acessíveis.
      Pode contactar-me pelo email telmasilva67@yahoo.com.br. Para nós é sempre uma grande alegria receber ex-residentes .Cumprimentos

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  3. Tanto a Ryanair como a Easyjet anunciaram que, em 2015, vão iniciar a rota Lisboa-Ponta Delgada. Isto significa que os voos vão ser muito mais baratos. Na ilha das Flores, há vários tipos de alojamento como hotéis, residenciais e hospedarias. É uma questão de pesquisar o que é mais conveniente para si... Esperamos ter ajudado e que o seu desejo de mostrar esta ilha à sua filha se concretize em breve!

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  4. olá, estou de partida com a minha mulher para as Flores, já esta quinta-feira, e este pequeno guia ajudou muito, obrigado e até breve! José M, Lisboa

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  5. Adorei o vosso blog! Pode por favor facultar o contato do sítio onde ficaram nas flores, pois adorei a descrição da casa.
    Muito obrigada

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