quarta-feira, agosto 09, 2017

Mostar não (se) esquece

Vale a pena visitar Mostar, não só por causa da sua ponte - provavelmente o monumento mais famoso da Bósnia-Herzegovina - mas também porque é uma povoação muito bonita e cheia de influências otomanas, logo diferente da maioria das cidades europeias.

Quase todos os visitantes chegam a Mostar em excursões organizadas a partir de Split ou de Dubrovnik, na Croácia, e partem no mesmo dia. Nós optámos por ficar uma noite, o que nos permitiu apreciar a cidade calmamente e visitar outros locais interessantes nas proximidades.

Para quem chegou a este artigo cheio de pressa à procura do que fazer na cidade, aqui fica uma lista baseada nas experiências que mais nos marcaram.

O que fazer em Mostar

  • Olhar para a cruz no cimo da montanha de onde os croatas bombardearam a cidade;
  • Atravessar a Ponte Velha de Mostar (Stari Most);
  • Percorrer o Bazar, na rua principal que conduz à Ponte Velha;
  • Descer ao rio Neretva;
  • Ver as vistas da cidade a partir da mesquita Koski Mehmed Pasha e da ponte Stari Pazar;
  • Provar “burek” e “ćevapi”;
  • Beber uma cerveja “Sarajevsko”;
  • Passear à noite pela zona antiga, para ver os restaurantes à beira-rio, rodeados de vegetação e iluminados como nos filmes mais românticos.

Para quem chegou até nós com mais vagar e gosta de ler, segue-se o relato da nossa viagem.



A nossa ida a Mostar

Partimos de Split, na Croácia, de manhã cedo. Daí até à fronteira com a Bósnia-Herzegoviana são uns rápidos 120 km por auto-estrada e, ao contrário do que pensávamos, o controlo aduaneiro foi expedito. Tínhamos também algum receio relativamente às estradas na Bósnia-Herzegovina, mas não há motivos para preocupações: a estrada até Mostar é boa, ao estilo das vias secundárias portuguesas.

Pelo caminho, visitámos as bonitas cascatas Kravica, a tempo de almoçarmos em Mostar, situada no meio de montanhas rochosas, pintalgadas de verde. No cimo de uma delas, há uma cruz branca, a marcar o local de onde as forças croatas bombardearam a cidade em 1993, durante a guerra da Bósnia. Nesse ano, Mostar esteve cercada durante nove meses e os seus habitantes privados de eletricidade e acesso a comida. Foi também nesse ano que Stari Most, a emblemática ponte que uniu a cidade durante 427 anos, foi destruída.

À tarde, dirigimo-nos para a Cidade Velha, onde fica o Bazar. De ambos os lados da ruela que conduz à famosa ponte, há lojas de artesanato onde parámos frequentemente para ver serviços de café turco, tapetes, cerâmica colorida, echarpes, entre outros produtos de influência otomana, vendidos a preços acessíveis.

A cidade está feita para caminhar e prosseguimos até à Ponte Velha (Stari Most), cruzando-nos de vez em quando com senhoras muçulmanas com lenços na cabeça e vestidos compridos.

Mostar tornou-se uma cidade turca no séc. XVI e, em 1566, a ponte de madeira que atravessava o rio Neretva foi substituída por uma de pedra, considerada uma obra-prima da engenharia otomana. Depois da guerra da Bósnia, a Ponte Velha, símbolo da união entre cristãos e muçulmanos durante séculos, foi reconstruída à imagem da antiga e declarada Património da Humanidade.

Na ponte, o piso é extremamente escorregadio, porque as pedras já estão polidas de tantas pessoas aí passarem, e tivemos de ter cuidado para não cair. De ambos os lados do rio Neretva, há torres medievais, casas de pedra calcária (incluindo os telhados com grandes lajes sobrepostas umas nas outras) e várias mesquitas com minaretes a querer chegar ao céu. Disseram-nos que, de um lado do rio azul-turquesa, ficava a parte muçulmana da cidade e do outro a católica. Da ponte não se vê diferença (é preciso afastarmo-nos do centro histórico), mas a realidade é que os muçulmanos vivem maioritariamente na margem oriental e os croatas na margem ocidental, onde existe uma gigantesca catedral.

Na zona muçulmana, sentámo-nos numa esplanada a comer “burek” e a beber uma cerveja “Sarajevsko”, simplesmente a ver a vida a passar. É possível descer ao rio Neretva ou atravessar a ponte Stari Pazar, de onde se tiram boas fotos. As melhores vistas de Mostar e de Stari Most são, porém, da mesquita Koski Mehmed Pasha, onde esperámos pelo pôr-do-sol.

Foi, então, que me lembrei dos cemitérios que vi pelo caminho, da cruz em cima da montanha, dos edifícios destruídos pelos bombardeamentos e das paredes cravejadas de balas que ainda existem em Mostar. Apesar da guerra da Bósnia ter acabado há 22 anos, e porque Mostar não esquece, ainda há marcas espalhadas por todo o lado. Mesmo assim, há quem tenha contornado os buracos das balas com tinta colorida e, ao final do dia, as andorinhas voam no céu, ouvem-se tanto os cânticos dos Muezzin como os sinos da catedral e os restaurantes à beira-rio iluminam-se de vida.





No dia seguinte, visitámos o mosteiro Blagaj Tekke e a localidade de Pocitelj, nas proximidades de Mostar, e depois dirigimo-nos para Dubrovnik, na Croácia.

Guia Prático

Onde dormimos

Hotel Villa Milas, um hotel novo e muito bem localizado, perto da Ponte Velha de Mostar. Tem parqueamento privado gratuito e um bom pequeno-almoço.

Onde comemos

Restaurante Sadvran. Debaixo das ramagens de árvores, numa esplanada fresca, comemos uma espécie de grelhada mista, incluindo "ćevapi".

O que provámos

  • "Ćevapi", pequenas salsichas sem pele e grelhadas, enfiadas dentro de um pão achatado, acompanhadas de cebola picada;
  • "Burek", um pastel de massa folhada estaladiça, recheado com carne, queijo, batata ou abóbora. Vendem-se nalguns restaurantes, mas principalmente nas padarias (muitas vezes ainda mornos);
  • Doces turcos;
  • Café bósnio;
  • Cerveja "Sarajevsko";
  • Gelados a 50 cêntimos a bola.

O que visitámos perto de Mostar

Cascatas Kravica (a 40 km)

Umas quedas de água sobre um lago rodeado de vegetação luxuriante, onde se pode nadar.

Mosteiro Blagaj Tekke (a 12 km)

Construído sob um rochedo escarpado onde nasce o rio Buna, este mosteiro muçulmano do séc. XVI é um dos locais mais antigos e sagrados da Bósnia-Herzegovina, tendo sobrevivido incólume à guerra da Bósnia.

Pocitelj (a 30 km)

Uma povoação medieval fortificada, famosa pela sua arquitetura otomana, incluindo uma mesquita, uma madrassa (escola) e várias casas turcas. Ao contrário de Blagaj Tekke, Pocitelj foi seriamente danificada pelas forças croatas. Mesmo assim, gostámos muito de calcorrear os seus caminhos rodeados de árvores, de encontrar casas já recuperadas e de subir ao topo, de onde se tem uma vista fantástica sobre a cidade, o rio Neretva e a paisagem envolvente.

Dicas de viagem

Poderá encontrar informação sobre os documentos a levar para a Bósnia-Herzegovina, a moeda local, a condição das estradas, a passagem da fronteira com um carro alugado, entre outras dicas importantes, aqui.

Veja também

2 comentários:

  1. Um destino a visitar, sem dúvida. O que li aqui fez-me ficar com mais vontade ainda. Fotografias impressionantemente belas. Pergunta técnica: usaram filtro polarizador para eliminar alguns reflexos?
    Continuação de boas viagens

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    Respostas
    1. Obrigado Gabriel. Sim, nas que têm o céu "escurecido" foi usado polarizador.

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