terça-feira, maio 23, 2017

Passadiços do Paiva: dicas para quem gosta de sossego

Quem nos conhece ou nos lê no Viagens à Solta sabe que gostamos de caminhar na natureza, mas não no meio de muitas pessoas - não que não gostemos de pessoas mas, talvez por vivermos em Lisboa, aos fins-de-semana precisamos de algum sossego. Este artigo é, pois, para quem se identifica connosco e quer fazer tranquilamente os Passadiços do Paiva, o percurso pedestre mais famoso de Portugal.

O trilho de 8,7 km segue - quase sempre em plataformas de madeira - pela margem esquerda do Rio Paiva, no concelho de Arouca, distrito de Aveiro. Pode-se começar ou na praia fluvial de Areinho ou em Espiunca. Nós começámos em Espiunca, que é a opção menos popular, porque teoricamente mais difícil. Não nos arrependemos, porém. Primeiro, porque fomos introduzidos devagarinho aos passadiços que, ao princípio, acompanham (quase sem desníveis) o rio Paiva. Isso permitiu-nos prestar atenção não só às plataformas de madeira, que são uma obra de arte, mas principalmente ao rio e a áreas de escarpa que, graças aos passadiços, estão agora ao alcance de qualquer um, permitindo-nos contemplar uma paisagem natural admirável, de outra forma, inacessível.

Como começámos cedo (pelas 8h da manhã), tivemos os passadiços praticamente só para nós. Vimos, ouvimos, cheirámos e sentimos, então, o que durante a semana não temos e é, por isso, que gostamos tanto de andar na natureza. Vimos o rio Paiva, umas vezes a ultrapassar rochas, outras vezes quase parado refletindo os amieiros, freixos, salgueiros e fetos. Vimos flores de Maio e borboletas coloridas. Ouvimos os nossos passos ritmados nas tábuas de madeira, passarinhos mil e o rio que, como os nossos pensamentos, conversou connosco, ora tumultuoso ora a murmurar serenamente. Molhámos as mãos na água cristalina, quando descemos à praia de Vau, a meio do trajeto. E sentimo-nos em paz. São sensações relaxantes, melhores do que qualquer som gravado da natureza, do que qualquer incenso, do que qualquer meditação que possamos fazer.

A parte difícil veio no final do percurso, quando os passadiços começaram a subir ligeiramente e depois se transformaram em escadas que tivemos de subir até ao fim. Os nossos corpos já iam quentes, porém, e não nos custou demasiado. Além disso, sabíamos que, depois daquela subida, seria sempre a descer até Areinho, onde tínhamos deixado o carro. Foi nesse ponto que começou a cruzar-se connosco um número crescente de pessoas, incluindo vários grupos: nós a terminar a caminhada, eles a iniciá-la ao final da manhã, quando começava a ficar mais calor. Por esse motivo, alguns caminhavam com bastante dificuldade e ansiedade, ainda mais porque, começando em Areinho, há muitas escadas para subir logo no início do trilho quando o corpo ainda não está pronto fisicamente.

Se, como nós, não gosta de multidões e prefere contemplar a natureza em silêncio, o melhor conselho que lhe podemos dar é começar o percurso de manhã bem cedo, se possível, mal abre o acesso aos Passadiços: assim evitará também as horas de maior calor.





































GUIA PRÁTICO

Preparativos

  • É preciso comprar, com antecedência, os bilhetes para os Passadiços do Paiva no website oficial (1 euro por pessoa). Os fins-de-semana e os meses de verão são os períodos mais procurados e os bilhetes esgotam rapidamente, até porque os passadiços são frequentados por muitos grupos e excursões organizadas.

    Nós fizemos o percurso num domingo, em Maio, e comprámos os bilhetes com uma semana de antecedência. Aquando da compra dos bilhetes, tem de se selecionar o local de entrada: Areinho ou Espiunca. Teoricamente, o percurso é mais fácil se iniciado em Areinho, mas essa opção já estava esgotada, pelo que adquirimos o bilhete com entrada em Espiunca. Apesar disso, quando lá chegámos, os funcionários que controlavam as entradas disseram-nos que podíamos ter começado em Areinho, sem qualquer problema.
  • Dado que (ainda) não existe muita oferta de alojamento nas proximidades, também é conveniente reservar quarto o mais cedo possível. Arouca e Castelo do Paiva são boas opções para pernoitar.

Itinerário

Como fomos sozinhos, a nossa logística foi a seguinte:
  • Dormida em Arouca;
  • Viagem de carro de Arouca para Areinho (cerca de 25 minutos). Chegados a Areinho, estacionámos o carro no parque junto ao início dos Passadiços, de modo a tê-lo disponível quando acabássemos a caminhada. O parque de estacionamento é bastante pequeno. Por isso, quanto mais cedo chegar, maior a probabilidade de encontrar um lugar. Caso contrário, terá de estacionar noutro parque mais longínquo, no cimo de um monte, o que o vai obrigar a andar mais;
  • Viagem de táxi de Areinho para Espiunca (cerca de 20 minutos). Preço: aproximadamente 15€ (marcados no taxímetro). Reservámos o táxi na véspera para as 8h00 e, às 7h50, o Sr. Miguel Brandão já estava à nossa espera para nos levar até Espiunca, onde começámos a caminhada. Contacto: 919 472 390.

Caracterização do percurso

  • Partida: Areinho ou Espiunca
  • Distância a percorrer: 8,7 km (linear)
  • Duração média: 2h30
  • Nível de dificuldade: alto
  • Desníveis: acentuados
  • Época aconselhada: os passadiços estão abertos todo o ano mas, na nossa opinião, as melhores alturas para os percorrer são a primavera e o outono, quando as temperaturas são amenas. No verão, convém ter algumas precauções com as temperaturas elevadas que se podem fazer sentir.
  • Website oficial: http://passadicosdopaiva.pt

Horários

  • Novembro a Março: 09h00 - 17h00
  • Abril a Agosto: 07h30 - 20h00
  • Setembro a Outubro: 09h00 - 18h30

Recomendações

Uma vez que nos cruzámos com várias pessoas mal preparadas, deixamos-lhe ficar algumas recomendações:
  • Saiba ao que vai: os passadiços têm quase 9 km e incluem uma parte com muitas escadas que terá de subir e descer na totalidade, independentemente do ponto onde começa o percurso;
  • Se fizer o percurso no sentido Areinho - Espiunca, não desanime com a subida íngreme logo no início. A seguir à escadaria, tudo se torna simples;
  • Vá ao seu próprio ritmo. Sobretudo se for integrado num grupo e tiver pouca preparação física, não tente andar à velocidade dos outros e vá fazendo algumas pausas;
  • Se vir que não consegue fazer o percurso na totalidade, pode chamar um táxi para o ir buscar à praia de Vau que fica sensivelmente a meio do percurso; também há alguns telefones SOS ao longo do trajeto onde poderá pedir ajuda;
  • Por fim, siga à risca as regras de conduta e nunca é demais lembrar: não vandalize os passadiços, não danifique a vegetação e não deixe ficar lixo.

Alternativas para quem não tem boa condição física

Quem quiser conhecer os passadiços, evitando a parte mais difícil do trajeto, ou seja, a escadaria, poderá optar pelas seguintes alternativas, que praticamente não têm desníveis:
  • A opção mais fácil é começar o percurso em Espiunca e andar apenas até à Praia de Vau que fica a meio do percurso. Aí poderá chamar um táxi ou fazer o caminho de regresso até Espiunca;
  • Outra alternativa é fazer o caminho de Espiunca até à escadaria (ida e volta).

O que levar

  • Roupa desportiva e calçado apropriado (calçado de caminhada ou sapatilhas). Jamais havaianas, chinelos, sapatos de salto alto;
  • Pelo menos 1 litro de água;
  • Alguma comida energética, como fruta, barritas de cereais ou frutos secos. O ideal é levar tudo numa pequena mochila, evitando ir muito carregado. Se precisar de comprar água ou comida, há cafés no início e no final do percurso, bem como a meio, na praia de Vau;
  • Protetor solar e chapéu, especialmente nos dias mais quentes.

































Onde (gostámos de) comer

Tasquinha da Quinta, em Arouca. Foi onde provámos a carne Arouquesa, acompanhada por batatas assadas no forno e uns excelentes grelos. Nas outras mesas, a comida também tinha bom aspeto, como o polvo, o bacalhau assado, o arroz de fumeiro ou de miúdos.

Onde dormimos

Casa do Centro, em Arouca. Trata-se de uma casa particular, mesmo no centro de Arouca, impecavelmente limpa. Apesar dos quartos terem casa de banho partilhada, há uma cozinha e uma sala-de-estar à disposição dos hóspedes.

Pequeno-almoço: não está incluído mas, umas casas mais abaixo, a Confeitaria Raínha 1 está aberta a partir das 6h30 da manhã.

O que (gostámos de) ver nas proximidades

Uma vez que viajámos de Lisboa para Arouca no sábado de manhã, ficámos com a tarde livre para explorar alguns locais, nomeadamente:

Arouca (centro histórico e mosteiro);

No Arouca Geopark:
  • Frecha da Misarela, a cascata mais alta de Portugal continental;
  • Pedras parideiras, um fenómeno raro no mundo, e o respetivo centro de interpretação;
  • Pedras Boroas do Junqueiro, umas pedras que lembram a superfície de um broa de milho;
  • Radar metereológico de Arouca, uma torre com um piso panorâmico donde se podem avistar o planalto rochoso da Freita logo ali e, mais longe, as montanhas de Montemuro, Serra da Estrela e Caramulo, bem como a Ria de Aveiro, a Figueira da Foz e o Grande Porto.

Caminhada realizada no dia 21 de Maio de 2017 (mochila: Kraxe Wien)

Curiosidade: em 2016, os Passadiços do Paiva foram considerados o projecto mais inovador da Europa, nos "World Travel Awards", conhecidos como os Óscares do Turismo.

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