terça-feira, março 07, 2017

Lousã: 5 aldeias do xisto pelas quais se vai apaixonar

As nuvens cinzentas do inverno cresceram dentro de nós e precisávamos de espairecer. Por isso, no fim-de-semana, fomos conhecer as Aldeias do Xisto que se situam no concelho da Lousã, nomeadamente: Casal Novo, Chiqueiro, Talasnal, Cerdeira e Candal.

Nesta altura do ano, ondas de nevoeiro cobrem frequentemente a serra da Lousã, pintada de verde e amarelo. Cheira a pinheiro, eucalipto, flores de mimosa e a terra molhada pela chuva. Ouvem-se os sons relaxantes da água nas ribeiras e dos pássaros a chilrear. Nas aldeias quase não se vêem pessoas, mas há gatos e cachorros simpáticos à espera de festinhas. Apesar de vazias, sentimos que os donos das casas recuperadas gostam de ali estar. Basta reparar nos pormenores: nas pedras de xisto que cobrem as calçadas e as paredes das casas; nas ardósias que lhes seguram cuidadosamente as telhas; nos potes pretos de ferro iguais aos que havia na casa dos meus avós a servir de vasos; nas cortinas de renda iguais às que a minha mãe aprendeu a fazer e a bordar com a sua mãe. São pormenores que me ligam às minhas raízes tal como as aldeias contam o passado do nosso país.

Aldeias do xisto do concelho da Lousã

1. Casal Novo

Começámos o nosso passeio por esta aldeia que se alonga encosta abaixo. Descemos umas escadas íngremes, querendo ver tudo rapidamente até sermos obrigados a parar por uma chuva fortíssima. Abrigámo-nos na entrada de uma casa e foi então que percebi: estas aldeias não são apenas para ver, até porque se visitam num instante. É preciso parar - parar para apreciar, parar para olhar para a chuva, parar para namorar, parar para sentir e pensar no que se está a viver - em vez de simplesmente se passar pela vida a correr.


2. Chiqueiro

Do Casal Novo fomos a pé até à aldeia de Chiqueiro, por um trilho assinalado (1km, 30 minutos). Com os guarda-chuvas pendurados nas mochilas, caminhámos pelo meio da floresta, ouvindo os pássaros e as gotas a cair das árvores, pois acabara de chover. No cimo do monte, a meio do caminho, descobrimos umas letras enormes de madeira onde se lê a palavra “Lousã” com vista para a vila. Depois descemos pelo meio da estrada (deserta e envolta pelo nevoeiro) até Chiqueiro. À semelhança de Casal Novo, encontrámos a aldeia quase deserta, mas fizemos um amigo chamado “Pastel”. Fizemos-lhe festinhas e demorámo-nos a fotografá-lo de vários ângulos, aparecendo depois uma senhora que se virou para ele e lhe disse: “ Estás feito vedeta hoje, pastel?”.


3. Talasnal

É a aldeia onde encontrámos mais movimento: de moradores e visitantes. Como nas outras, no Talasnal conjugou-se, com sabedoria e bom gosto, a rusticidade de uma aldeia e o conforto dos nossos dias: os caminhos e as casas são todas de xisto, há cortinas bonitas a espreitar das janelas e pormenores encantadores espalhados por toda a povoação, donde se avista, lá no fundo, o castelo da Lousã. Quem quiser ver a aldeia à distância, assente sobre socalcos e rodeada pelas montanhas, poderá parar numa espécie de miradouro existente na estrada que conduz à mesma. Nós gostámos tanto da vista que voltámos ao anoitecer para ver as luzes da aldeia a acenderem-se e a tornarem tudo (ainda) mais romântico.


4. Cerdeira

Chega-se a esta aldeia atravessando a pé uma pequena ponte e há logo uma caneca à entrada para bebermos água fresca. Quase todas as casas foram recuperados e transformadas em turismo rural, pelo projeto “Cerdeira Village” que também promove retiros artísticos. Que vontade de ficar por ali uns dias, de nos sentarmos numa das varandas voltadas para a serra a apanhar sol. Há um café, uma galeria e uma biblioteca. E mais uma vez, ouvem-se: as águas de uma ribeira e os passarinhos a chilrear.


5. Candal

Da Estrada Nacional N236, Candal não parece muito interessante, já que os edifícios que ladeiam o alcatrão são de cimento e alguns estão degradados. Para descobrirmos as casas de xisto e ganharmos uma perspetiva geral da aldeia, precisamos de subir as suas ruelas íngremes, por onde corre um regato que nos enche de sons relaxantes.


Baloiçar no infinito

No fim, ainda quisemos ir ao Alto de Trevim, o ponto mais elevado da Serra da Lousã, com 1200 metros de altitude. Foi aí que descobrimos, no meio do nada, um baloiço gigante de madeira, que nos fez sorrir como crianças. Por tudo isto, sei que é quando viajo que mais gosto de viver.

Coordenadas aproximadas do baloiço: 40°04'36.4"N 8°11'26.0"W






























Guia prático

A Rede das Aldeias do Xisto é composta por 27 Aldeias, recuperadas pela parceria entre os municípios, a Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto (ADXTUR) e agentes privados. O concelho da Lousã é o que tem mais Aldeias do Xisto no seu território. São cinco: Casal Novo, Chiqueiro, Talasnal, Cerdeira e Candal.

Duração da nossa visita

Um fim-de-semana é suficiente para conhecer as cinco aldeias. Nós visitámos Casal Novo, Chiqueiro e Talasnal num sábado e Cerdeira e Candal num domingo. O nosso conselho é não andar numa correria para ver todas as aldeias de uma vez. Se se apaixonar por alguma, deixe-se ficar e aproveite-a ao máximo, pois as outras não são muito diferentes (embora cada uma tenha o seu encanto).

De automóvel

É possível efetuar um percurso circular pelas cinco aldeias. São todas acessíveis por carro, estando bem sinalizadas e as estradas completamente asfaltadas.

A pé

A Serra da Lousã dispõe de percursos pedestres muito interessante e identificados que se podem consultar em: http://www.baldioslousa.com/turismo/percursos-pedestres/.














Onde comemos

  • Restaurante Ti Lena, no Talasnal. Situado numa casa de xisto, o restaurante por dentro é como uma tradicional casa de família. Entra-se, sem cerimónias, pela cozinha para uma pequena sala-de-jantar com uma lareira acessa numa noite de inverno. As paredes são de pedra onde vemos: uma estante com pratos de louça antigos, alguidares e potes de barro, jarros de vinho como antigamente, fotografias. Tudo a lembrar o passado. A lembrar a cozinha e a sala de jantar dos meus avós. É preciso reservar com antecedência e escolher previamente o que se quer comer. No nosso caso, entre cabrito assado com castanhas, chanfana ou bacalhau. Optámos pelo cabrito e até se desfazia de tão tenro. Preferimos assim: um restaurante com uma ementa reduzida, mas com pratos muito bem confecionados e servidos na hora.
  • Restaurante Sabores da Aldeia, no Candal. À semelhança do restaurante anterior, aqui também não há menu e é preciso reservar com antecedência. A escolha dos pratos, apesar de limitada, inclui os mais representativos da gastronomia da Lousã, como o cabrito assado e a chanfana. Para variar, comemos alheira de caça e (um divinal) arroz doce.

Onde quisemos comer mas não conseguimos

  • Restaurante O Burgo, situado perto do Castelo de Arouce (segunda metade do séc. XI), das Ermidas da Senhora da Piedade (local de devoção e culto religioso) e da Praia Fluvial da Senhora da Piedade (piscinas naturais, com água corrente, muito procuradas no Verão). No domingo de manhã, andámos a passear pela zona, mas nem com dois dias de antecedência conseguimos lugar neste restaurante que é o primeiro classificado na Região de Coimbra pelo “Tripadvisor” e muito recomendado pelos habitantes locais.

Produtos regionais

  • Pratos típicos: a Chanfana, o Cabrito Assado e o Sarrabulho;
  • Sobremesas: a Tigelada Lousanense, os Talasnicos e os Serranitos;
  • O Licor Beirão, originário da Lousã e cuja produção aí se mantém;
  • O vinho de Foz de Arouce;
  • O Mel DOP Serra da Lousã.

Onde dormimos

Palácio da Lousã Boutique Hotel

Situado em pleno centro histórico da Vila da Lousã, é uma excelente base para partir à descoberta quer das Aldeias do Xisto quer do Castelo de Arouce e das Ermidas da Senhora da Piedade. O hotel é, todavia, só por si, uma experiência, uma vez que está inserido num edifício brasonado do século XVIII, outrora Palácio da Viscondessa do Espinhal, tratando-se de um imóvel classificado como Património Histórico de Interesse Público.



Todo o restauro foi feito com bom gosto e atenção ao pormenor, sem intimidar. O quarto onde ficámos parecia o da viscondessa e as várias zonas de estar são bonitas e acolhedores. O apetitoso pequeno-almoço incluía vários produtos regionais, como doces, compotas, mel da serra da Lousã, presunto e queijos variados, como queijo fresco, queijo do rabaçal e requeijão - tudo servido numa sala soalheira com vista para o jardim do hotel e para a serra da Lousã. O restaurante "Viscondessa - Licor Beirão RestoBar", situado no hotel, também nos foi recomendado e, se for tão bom ao jantar como é ao pequeno almoço, será uma escolha acertada. A única coisa de que não gostámos? Não termos tido tempo para desfrutar verdadeiramente do palácio: devagar, como fizemos nas aldeias.

Website oficial das Aldeias do Xisto

www.aldeiasdoxisto.pt

Passeio realizado no fim-de-semana de 18 e 19 de Fevereiro de 2017

3 comentários:

  1. Vivo num concelho relativamente perto da Lousã e confesso (para minha infelicidade) que nunca tive oportunidade de visitar as Aldeias do Xisto, mas depois de ler o vosso artigo e ver as vossas fotografias fiquei com ainda mais vontade de as visitar!

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  2. Adoro o blog! A maneira como os textos são escritos, juntamente com as fotografias me fazem viajar sem sair do lugar. Os posts são uma inspiração pra mim e esta será minha próxima viagem de fim de semana em Portugal. Obrigada, parabéns e continuem a inspirar pessoas :)

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