terça-feira, janeiro 31, 2017

Mrauk U, são lugares assim que nos fazem querer viajar

Dá-me os teus olhos. Quero levar-te a ver um lugar longínquo onde os homens construíram templos no meio da selva, enchendo-os com milhares de budas. Um lugar onde as pessoas com quem nos cruzamos sorriem e as crianças ficam alegres quando nos vêem.

Vamos a voar até lá com asas de pássaro, porque aqui podemos fazer tudo e, além disso, a viagem real demora muitas horas - de avião e de carro por uma estrada cheia de buracos que nunca mais chega ao fim.

Do ar, vemos o mar onde chega um grande rio de águas castanhas e, depois, dezenas, centenas de fiozinhos de água a serpentear pela paisagem feita de planícies sem fim. Voando mais rasos, vemos muitos campos de cultivo, arrozais, palmeiras e, perto de uma aldeia, a estátua de um Buda gigante pintada de ouro. Nos pequenos montes que crescem das planícies, saem de vez em quando pináculos dourados que parecem sinos gigantes. As pessoas daqui chamam-lhes “stupas” e, no seu interior, guardam relíquias associadas com Buda ou com outras pessoas sagradas. Vês ali um homem a andar à volta de uma no sentido dos ponteiros do relógio? É a sua forma de rezar, para se tornar numa pessoa melhor.

Estamos a voar com asas de pássaro sobre o Myanmar, um país asiático que já se chamou Birmânia, entre a Índia, a China e a Tailândia. Pelo caminho, vemos também mulheres a carregar água à cabeça em vasilhas prateadas e jovens a jogar “chinlone”, um desporto tradicional, em que não podem deixar cair ao chão a bola que vão passando entre si com a cabeça, os pés e os joelhos, como numa dança.

Queres dançar comigo nas nuvens? Sim, é possível, mas só um bocadinho que estamos quase a chegar a Mrauk U, o lugar longínquo que te queria mostrar. Fica no oeste do Myanmar, perto da fronteira com o Bangladesh, no meio de uma paisagem onde ondulam cursos de água e colinas baixas cobertas de palmeiras. É tão longe das principais cidades birmanesas e os transportes demoram tantas horas a chegar que quase não se vêem turistas. Imagina agora a eternidade que terá levado às pessoas da tua terra - sim, os portugueses - a navegar até lá, no século XVI. A cidade chamava-se então Arracão e era a capital de um poderoso reino, graças às relações comerciais que mantinha não só com Portugal, mas também com a Holanda, a Arábia, a Pérsia e a Índia.

À chegada, trocamos as asas por uma bicicleta. Pedalamos pela povoação, traçando riscos nas ruas e nos caminhos de terra. “Mingalaba!” (“Olá!”) - dizem-nos, a sorrir, as pessoas com quem nos cruzamos. Homens, mulheres e crianças vestem saias compridas: as dos homens aos quadradinhos, ora em tons avermelhados ora esverdeados; as das mulheres mais coloridas, com padrões variados, e as dos meninos da escola, verde-escuro.

As pessoas da terra dos sorrisos vivem rodeadas de árvores, em casas com paredes e telhados diferentes dos nossos. Os telhados são feitos com folhas de palmeira e as paredes com tiras de bambu, às vezes entrelaçadas em padrões geométricos. É também com esses dois materiais dados pela natureza que fazem os chapéus cónicos que levam para os campos e para os rios. Primeiro, tecem uma rede com ripinhas de bambu - ganha forma o chapéu - depois cobrem-na com folhas de palmeira, para a chuva não entrar.

Continuamos a pedalar (sentes-te uma estrela de cinema, mas não: és apenas um estrangeiro e as pessoas ficam genuinamente curiosas e contentes ao ver-te). De vez em quando, paramos para observar: nesta casa, um ferreiro a forjar metal para fazer foices; nos campos, homens e mulheres a ceifar arroz e agricultores a lavrar a terra com a ajuda de vacas brancas com bossa; a subir umas escadas de pedra, dois monges-criança vestidos de vermelho-escuro; ali mais adiante, uma senhora a fazer leques à mão com folhas secas de palmeira; numa estrada, três mulheres a partir pedra para lhe repararem os buracos; daquela janela, crianças sentadas à frente de um quadro preto repetindo em uníssono uma lengalenga e, na berma de um caminho, adolescentes a apanhar grilos abrindo pequenas covas na terra. “Fritos são um excelente petisco” - dizem-nos - “e muitas pessoas gostam de os comer enquanto bebem cerveja."

Giram as rodas da bicicleta e vamos agora a caminho dos magníficos templos que vários reis construíram quando Mrauk U era uma das cidades mais ricas da Ásia. Ao contrário dos do resto do país, assemelham-se a fortalezas e são feitos de pedra que o tempo escureceu. Hoje ainda se podem visitar cerca de setenta, espalhados por numerosas colinas, mas irás esquecer-te da maioria deles e ainda mais depressa dos seus nomes. Lembrar-te-ás, porém, do “Shittaung”, também conhecido como o templo dos 80 mil Budas, construído para celebrar a vitória frente a um ataque dos portugueses no séc. XVI; do “Kothaung” ou das 90 mil imagens de Buda, rodeado por centenas de “stupas” e ainda do “Htukkanthein” que por fora se assemelha a um “bunker” e por dentro tem um misterioso corredor em espiral que, à semelhança dos outros templos, te vai surpreender e fazer sentir um explorador.

Os majestosos templos estão cheios de histórias. Contam-nos que, num mundo anterior ao nosso, houve vinte e oito Budas e que, pelo mundo atual, já passaram quatro. Lá estão eles, eternizados em estátuas de pedra nos vários templos que visitamos. Os budistas acreditam que um quinto Buda ainda há-de nascer. Acreditam também no horóscopo e nos signos budistas, representados por oito animais. São eles que determinam a personalidade de cada pessoa e antigamente todos os casamentos eram arranjados de acordo com a compatibilidade dos signos do casal.

Por falar em animais, antes de atingir o nirvana, Buda teve várias vidas, tendo reencarnado em diversos animais - lá estão eles esculpidos nas paredes de outro templo. Assim também é com cada um de nós, creem os budistas: quando morremos, reencarnamos noutros seres em função das nossas ações em vida. Boas intenções geram bons frutos - acreditam - e a isso chamam “Karma”. Nos templos, há também histórias com uma moral gravadas na pedra, como a do feiticeiro que, por compaixão, ressuscitou um tigre que depois o comeu. O que já não existe, todavia, é uma das estátuas mais valiosas e veneradas do país - o “Mahamuni Buddha” - que foi levada para Mandalay quando, em 1784, os birmaneses conquistaram o reino de Mrauk U.

Chegou ao fim o reino, mas todos os dias ao entardecer, o sol, o céu e uma neblina provocada pelo fumo das fogueiras produzem um pôr do sol que te levará aonde nem as asas de um pássaro te poderão conduzir.

































Guia Prático

Mrauk U (em birmanês, pronuncia-se “miau-u” e localmente “mrau-u”) fica no estado de Rakhine, no oeste do Myanmar, perto da fronteira com o Bangladesh. Dada a sua localização remota, é o menos visitado dos principais complexos budistas do país.

Quanto tempo ficámos

Estivemos três noites, ou seja, dois dias inteiros em Mrauk U. É o tempo mínimo que recomendamos a quem quiser visitar a localidade. Se pudéssemos, teríamos ficado mais um dia.

Como chegámos

  • Na ida: viajámos de avião entre Yangon e Sittwe, através da companhia Air KBZ (cerca de 2h de viagem) e depois num carro com motorista, que nos levou do aeroporto de Sittwe até ao nosso hotel em Mrauk U (aproximandamente 3h30). Apesar da estrada de alcatrão estar a ser reparada, uma boa parte ainda é em terra batida e está cheia de buracos;
  • No regresso: fomos de barco público de Mrauk U para Sittwe (5 horas deliciosas a descer o rio Kaladan) e depois de avião para Yangon.

Outras formas de chegar

  • De avião (voo Yangon - Sittwe) e de barco privado (Sittwe - Mrauk U). Dada a falta de informação existente, não conseguimos saber nem os horários nem os preços destes barcos;
  • De avião (voo Yangon - Sittwe) e de barco público (Sittwe - Mrauk U). Esta é a opção mais económica mas, infelizmente, na altura em que viajámos, não era possível conciliar, no mesmo dia, as viagens de avião e de barco. O avião chegava a Sittwe à tarde e o barco partia de manhã cedo, o que nos obrigava a passar aí uma noite;
  • De autocarro a partir de Mandalay (21 horas ou mais).

Nota: no aeroporto de Sittwe, há taxistas disponíveis para levarem as pessoas até ao porto ("jetty") donde partem os barcos, tanto públicos como privados, para Mrauk U.

Preços (em Novembro de 2016)

  • Bilhete de avião (ida e volta) entre Yangon e Sittwe pela Air KBZ: 203 euros;
  • Regresso no barco público de Mrauk U para Sittwe: 10 USD (pode-se comprar o bilhete no cais de embarque).


Guia em Mrauk U

Ainda em Portugal, contactámos por e-mail um guia autorizado em Mrauk U, chamado Ko Soe. Foi ele que nos organizou toda a viagem em Mrauk U e que nos acompanhou, de bicicleta, pelas ruas da povoação, pelos principais templos e, por fim, até à colina para ver o pôr do sol que descrevemos antes. Além de falar bem inglês, é simpático, informado e um bom conversador, tendo-nos permitido conhecer um pouco sobre os costumes e maneiras de pensar locais.

Preço total do pacote de viagem: 340 USD (2 pessoas), incluindo carro privado do aeroporto de Sittwe para Mrauk U; regresso a Sittwe no barco público e transfer privado até ao aeroporto; aluguer de bicicletas em Mrauk U e visita guiada de um dia, mais visita guiada às aldeias Chin no segundo dia.

Contacto: Ko Soe, e-mail: rakhineguidemrauku@gmail.com

Onde comemos

Dos pouquíssimos restaurantes existentes, aquele de que mais gostámos foi o Happy Garden, a uma curta distância a pé dos principais hotéis de Mrauk U. Serve comida tradicional caseira e é gerido por uma simpática família (um pai e dois filhos pequenos que servem à mesa e uma filha cozinheira). O nosso prato preferido foi o caril de peixe, mas é tudo bom, mesmo quando não tem grande apresentação. Um dia receberam familiares da mulher provenientes de várias partes do Myanmar com o propósito de conhecerem um novo membro da familía e, além de quererem tirar uma foto de grupo connosco, ofereceram-nos um pouco da comida que estavam a fazer para eles próprios.



Onde dormimos

Hotel Mrauk U Palace Resort: é um hotel básico, mas que para nós foi suficiente. Preço por noite, com pequeno-almoço incluído: 31 euros (quarto duplo).

Principal recomendação

Não esquecer o repelente dos mosquitos! É também aconselhável tomar medicação de prevenção (profilaxia) contra a malária.

Segurança

Alguns países aconselham a não viajar para o Estado de Rakhine, devido aos conflitos locais com a população muçulmana. Apesar de Mrauk U não ter sido afetada e de não termos sentido qualquer perigo ou receio quando lá estivemos, é aconselhável averiguar as últimas informações de segurança antes de visitar a região.

O que visitar nas proximidades

Veja ainda

2 comentários:

  1. Olá Sofia: acho que este foi o texto que mais gostei de ler. Excedeu os outros no modo como me conduziste por paisagens que nunca vi, pessoas a quem nunca falei e um pôr do sol a que assisti. Parabéns ao Paulo pelas fotos, cativantes como sempre.

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