domingo, janeiro 15, 2017

Monte Saint-Michel: inferno ou paraíso?

Poff, poff, poff - lá vai o gigante Gargantua pela baía fora, até que: “Aaaaii, que dor! O que é isto que me está a magoar o pé?”. Descalçou o sapato, sacudiu-o e eis que caíram ao chão três pedras. Assim nasceram o Monte Saint-Michel, o Monte Dol e a ilha Tombelaine.

Lemos esta história no Centro de Informação Turística do Monte Saint-Michel, depois de cerca de duas horas de viagem de carro desde Nantes, onde fizemos uma escapadinha de quatro dias.

Além da lenda de Gargantua, soubemos da história de Saint Aubert, Bispo de Avranches. Reza assim: certa noite, o arcanjo Miguel apareceu a Aubert num sonho, pedindo-lhe que construísse um santuário no cimo do monte. Não acreditando na aparição, o bispo continuou a sonhar com o arcanjo até este lhe fazer um buraco na testa com um dedo para que não restasse qualquer dúvida. Corria então o ano de 708 e o santuário foi construído.

Continuando a percorrer o centro de visitantes, ficámos a conhecer outras personagens e factos curiosos sobre a segunda atração turística mais visitada de França (a seguir a Paris), classificada como Património Mundial pela UNESCO, nomeadamente:

Figuras emblemáticas do Monte Saint-Michel

São Miguel

O arcanjo que dá nome à ilha é, segundo os católicos, quem pesa as almas durante o Último Julgamento e acompanha as escolhidos às portas do Paraíso. Olhando para o Monte Saint-Michel, é a sua estátua dourada que ocupa o ponto mais alto, sobre o pináculo esguio da abadia.

A Mãe Poulard

Nascida em 1851, a senhora Poulard era uma simples camareira até ter tido uma ideia brilhante: alimentar os peregrinos que, nessa altura, tinham de esperar que a maré lhes permitisse atravessar a baía a pé e assim alcançar o Monte Saint-Michel. Como isso podia acontecer a qualquer hora do dia ou da noite, era preciso alimentá-los rapidamente à chegada. A senhora Poulard lembrou-se então de cozinhar umas omeletes, ficando famosa(s) até aos dias de hoje.

Ainda no Centro, tirámos nota dos locais que gostaríamos de descobrir mais tarde quando explorássemos a ilha, como numa espécie de caça ao tesouro. São eles:

Locais a descobrir no Monte Saint-Michel

A Grande Rua

Esta não tem de enganar. É a rua existente mal se entra na vila e que conduz à abadia no seu ponto mais alto.

As casas mais antigas

Duas das casas mais antigas da localidade chamam-se la Sirène (a Sereia) e Maison de l’Artichaut (Casa da Alcachofra). São ambas do séc. XV: a primeira situada no início, a segunda no topo da Grande Rua.

As muralhas

Construídas no século XIV para proteger o monte e a abadia dos ingleses durante a Guerra dos Cem Anos, as muralhas proporcionam excelentes vistas panorâmicas sobre a baía e a ilha Tombelaine.

Os melhores miradouros para o Monte Saint-Michel

Antes de deixarmos o centro de visitantes, reparámos num mapa onde estavam assinalados vários pontos com uma vista privilegiada para o Monte Saint-Michel. Sem tempo a perder, saímos de lá apressadamente, já que a primeira meia-hora do parqueamento local é gratuita e não queríamos pagar a entrada duas vezes.

Miradouro Pointe de la Roche Torin

De novo no carro, rapidamente chegámos a este miradouro, sem sabermos ainda que seria dali que traríamos as melhores memórias do Monte Saint-Michel. A pé, percorremos, primeiro, uma zona de campos verdes com vários avisos para os cães serem levados pela trela para não correrem atrás das ovelhas. Do nosso lado direito, estendia-se uma enorme baía vazia (praticamente só areia) até que, continuando a andar, lá estava ele: o Monte Saint-Michel, envolto numa leve neblina, como uma visão. Tivemo-lo só para nós durante todo o tempo em que aí andámos no meio de ovelhas de cabeça preta.

Dei então comigo a pensar que São Miguel conduz, de facto, os homens ao paraíso, mas ainda em vida. Porém, mal passamos as suas portas, é do inferno que nos lembramos. É logo na Grande Rua que entrámos: comprida mas estreita para tantas pessoas e cheia (apenas) de lojas com recordações que se repetem; cafés e restaurantes com preços para turista; museus de terror de aspeto duvidoso e, por fim, lá em cima, uma enorme fila para entrar na abadia. Demos meia-volta, passámos pelas muralhas e regressámos à base do monte por ruas secundárias. Conclusão: não ficámos muito tempo na ilha e o que mais me surpreendeu ainda foi ver uma senhora francesa, numa igreja, com um cão ao colo como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Miradouro da barragem

No regresso, parámos na barragem que, desde 2009, pretende não só devolver a água do mar à baía que rodeia o monte, voltando a transformá-lo numa ilha, mas também ser um excelente miradouro para o Monte Saint-Michel provando que as barragens também podem ser bonitas.

Fechando agora os olhos e relembrando o dia em que aí estivemos, são as ovelhas de cabeça preta, nós a andar pelos campos verdes e o monte ao longe, ora no meio da neblina ora ao pôr do sol sob tonalidades lilás, que me vêm imediatamente à mente. E essas memórias não há nenhuma foto que as consiga reproduzir, por mais imagens que já tenhamos visto do Monte Saint-Michel.


























Guia Prático

O Monte Saint-Michel é uma pequena ilha rochosa na foz do Rio Couesnon, o qual desagua no Canal da Mancha que separa França de Inglaterra.

Como chegámos

Viajámos de carro a partir de Nantes, via Rennes, sempre por auto-estradas gratuitas (cerca de duas horas de viagem). Também há quem vá de Paris e regresse no mesmo dia. A viagem, porém, é longa, já que Paris fica a 360 km.

Parques de Estacionamento

Há 13 parques, ou seja, dificilmente não conseguirá encontrar lugar para estacionar o carro. Em Dezembro de 2016, os preços eram os seguintes: 11,70 euros (24h), 6,50 euros (2h) e 30 min (gratuito). Os preços podem ser consultados em: www.bienvenueaumontsaintmichel.com

Como ir da zona de estacionamento até ao Monte Saint-Michel

  • A pé: são cerca de 35 minutos, ao longo de trilhos próprios;
  • De autocarro (Passeur): a viagem demora aproximadamente 10 minutos e está incluída no preço do estacionamento. Os autocarros (frequentes) partem da Place de Navettes, perto do Centro de Informação Turística, cujo acesso está muito bem sinalizado a partir dos vários parques. A última paragem fica a 350 metros do Monte Saint-Michel, mas quem quiser pode sair antes: quer na Route du Mont, para fazer a pé o percurso com vista para o Monte, quer na Place du Barrage, para ver a barragem e o miradouro. Há autocarros todos dias, durante 24h (entre a 1h e as 7h30 da manhã mediante pedido prévio);
  • De carruagem puxada a cavalo (Maringote), como faziam os peregrinos noutros tempos. A viagem é paga e tem início junto ao Centro de Informação Turística.

Onde ficar e comer

Há bastante oferta de alojamento nas localidades mais próximas, desde hotéis, a turismo de habitação e parques de campismo. Ao longo do trajeto entre a zona de estacionamento e o monte também há alguns hotéis. Já dentro da própria localidade, a oferta é limitada e os preços são naturalmente mais caros. O mesmo vale para os restaurantes.

O que provar

  • As famosas omeletes da senhora Poulard;
  • Crepes de dois tipos: de farinha branca e recheio doce (crêpes) ou de trigo sarraceno e recheio salgado (galletes);
  • Calvados, uma espécie de sidra aguardente típica da baixa Normandia feita à base de maçã.

Caminhadas

Os vários miradouros nas proximidades do Monte Saint-Michel proporcionam uns belos passeios a pé. No Centro de Visitantes, além de informação sobre os vários trilhos existentes, também se pode contratar um guia para fazer uma visita à volta do monte, desde que a maré esteja vazia permitindo andar pelo areal. Dada a rapidez com que a maré sobe, é muito perigoso aventurar-se sozinho.

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