sábado, dezembro 10, 2016

Myanmar - Diário de Viagem (Semana III)

Dia XV - Carrinha para Nyaung Shwe

Só quem não viaja é que não passa por uma assim. Em Yangon, comprámos previamente o bilhete de autocarro para nos levar de Bagan até ao Lago Inle, com receio de que os lugares esgotassem na véspera. As reservas ainda são feitas por telefone e depois manualmente: os nossos nomes e detalhes da viagem escritos à mão nos respetivos bilhetes. Perguntei ao senhor da agência várias vezes se o autocarro era VIP (como lhes chamam por aqui) tendo recebido resposta positiva.

Foram oito horas de viagem, não num autocarro VIP como o que aparecia nas costas do bilhete, mas na carrinha da segunda foto, as nossas malas presas ao tejadilho com uma corda. Chegámos inteiros e isso é que interessa.

Agora estamos a descansar junto ao Lago Inle, expectantes para o que vamos encontrar nos próximos dias.



Dia XVI - Pagodes de Kakku e Festa do Ano Novo Shan

Durante as viagens há dias maus, há dias bons e há aqueles que superam tudo o que tínhamos planeado e nos ficam na memória para sempre - hoje foi um desses dias.

De manhã, alugámos bicicletas e pedalámos à beira do lago Inle. Pedalámos sem destino, apenas pelo prazer de sentir o ar fresco na cara e descobrir sem pressas a localidade de Nyaung Swhe, a mais povoada da região. Terminámos o passeio no mosteiro Shwe Yan Pyay, famoso pelas suas invulgares janelas ovais e pelo infindável número de estatuetas de Buda, onde vimos alguns monges-criança entre leituras e brincadeiras com um gatinho bebé.

À tarde, contratámos um motorista para nos levar à "floresta de pagodes" de Kakku. Foram mais de duas horas de viagem (para cada lado) por uma estrada estreita, na companhia de um guia (obrigatório) da etnia Pa-O, que nos foi explicando curiosidades daquela região. Durante a conversa, disse-nos que na cidade de Taunggyi ia haver um grande festival nessa noite, em celebração do ano novo da etnia Shan, e que seriam largados balões de ar quente. Negociámos com o condutor o facto de ter de ficar à nossa espera até à noite e foi para lá que nos dirigimos depois da visita a Kakku.



Taunggyi fica no cimo das montanhas e, por isso mesmo, à noite faz um frio de rachar, em contraste com o calor do dia - avisou-nos o guia. Eu estava apenas vestido com longyi e camisa birmanesa, a Sofia tinha casaco e uma saia típica. Ainda no lusco-fusco, o frio já começava a apertar. Os birmaneses usavam bons casacos e gorros. Para além do palco de música tradicional e do palco de música moderna, o recinto estava repleto de barraquinhas de comida e de tudo o que se possa vender numa feira. Decidi que tinha de comprar algo para vestir. Parei na primeira barraca de roupa e, por gestos e a ajuda de uma calculadora para escrever o preço, acabei por comprar uma espécie de polar por apenas 2€ que deixou o vendedor todo feliz e a mim mais quentinho.

O resto da noite foi passado a experimentar comidas das barraquinhas - gostámos muito das espigas de milho assadas, barradas com lima e malaguetas. Tirámos dezenas de selfies a pedido dos habitantes locais e fomos o centro das atenções por onde passámos (estarmos vestidos com a roupa tradicional também ajudou). Espalhámos sorrisos e "mingalabas" e ainda trocámos meia-dúzia de frases com um senhor que queria mostrar que sabia inglês mas sem grande sucesso. Muitos deles estavam tão abismados que certamente nunca tinham visto um estrangeiro ao vivo. Tudo gente super-simpática e afável que nos fez sentir em casa, num lugar tão diferente.

A dada altura, no terreiro central, começou a juntar-se uma pequena multidão: uns dançavam ao ritmo de uma música repetitiva e hipnótica, os outros começavam a preparar o primeiro balão. Depois de algum esforço, lá conseguiram pô-lo a subir. Para grande surpresa nossa, quando se encontrava a algumas dezenas de metros do solo, desatou a disparar fogo de artifício para todo o lado e assim continuou até desaparecer no céu.



Dia XVII - Lago Inle

No lago Inle há aldeias cujas casas assentam sobre estacas: umas casas são de madeira com muitas janelas a toda a volta, outras têm paredes de bambu, com padrões geométricos.

São bonitas as aldeias do lago, onde as pessoas se deslocam de ponte em ponte e de barco, porque todas as ruas são feitas de água. Nas varandas, há orquídeas penduradas e à frente de cada casa um cais e um jardim flutuante.

Não há carros nem bicicletas nas aldeias, porque é num lago que estamos. É em barcos de madeira que os seus filhos pescam, se movimentam e cultivam no meio da água espelhada, uns remando com a ajuda do pé ao qual prendem o remo, outros sentados. Há também canoas artesanais já com motor e outras embarcações ainda maiores com motores tão potentes quanto barulhentos onde viajam (maioritariamente) turistas como nós.



Não quero recordar o ruído dos nossos barcos nem a cara séria dos habitantes locais com quem nos cruzámos e que não nos olharam nos olhos. Quero recordar a beleza do lago, alguns sorrisos, as aldeias cuidadas, os mosteiros elegantes, os "stupas" dourados e os jardins flutuantes, as flores cor-de-rosa dos nenúfares, os mercados cheios de produtos frescos e misteriosos, as nuvens iluminadas de ouro ao pôr do sol.

Perguntem a alguém como correu uma viagem e só vos dirão coisas boas. Eu digo-vos que no lago Inle nem tudo é perfeito, que a água outrora pura está a ficar poluída, que alguns pescadores tradicionais já não o são posando apenas para as fotos em troca de dinheiro, que a vida das pessoas é provavelmente dura e que já há turistas a mais. A existência de cada um de nós, porém, também não é perfeita, mas estamos vivos e há que saber ver as coisas boas. E dessas, o lago Inle está cheio.



Dia XVIII - Gruta de Pindaya

Hoje de manhã, fomos ao mercado de Mingalar, em Nyaung Shwe. Uma das senhoras ficou tão contente com a compra que lhe fizemos que - entre sorrisos e a palavra luck (sorte) várias vezes repetida como que a explicar-nos - bateu levemente com a nota que lhe demos nos restantes produtos que tinha à venda.

À tarde fomos de táxi ver a gruta de Pindaya, uma gruta com mais de 9000 budas dourados onde relembrámos os ensinamentos do budismo: abdicar de todo o mal, cultivar o bem e manter a mente limpa. Na viagem, vimos passar pelas janelas do carro suaves colinas de terra vermelha, com mantas de campos cultivados com diferentes cores, no meio de outros cheios de flores amarelas. Cruzámo-nos com carroças puxadas por bois e por várias manadas de vacas com bossa; por crianças livres a pedalar bicicletas gigantes; por senhoras da etnia Pa-O com os seus trajes pretos e lenços coloridos na cabeça e por outras a regressar dos campos com chapéus ora de palha ora em cone. De vez em quando, os picos dourados dos "stupas" espalhados pela paisagem queriam tocar as nuvens brancas. E não sei se é por me sentir feliz, mas aqui até o céu me parece mais bonito.

(Apesar de amanhã passarmos boa parte do dia em Yangon, este será provavelmente o último post que publicaremos na Birmânia, já que partiremos para Portugal de madrugada.)





Dia XIX e XX - Yangon e Regresso a Portugal

Com três voos (Air KBZ e Emirates) conseguimos viajar desde o Lago Inle no Myanmar até Lisboa. Com tanta mudança de fuso horário, foi complicado perceber se foram dias ou noites de viagem, pelo meio de sonecas inquietas e filmes dos quais já nem me lembro do nome.

Porque o intervalo entre os voos era muito grande, ainda houve tempo para regressar a Yangon. O plano passava por passear pela baixa da cidade e ver algum recanto que ainda não tivéssemos visitado, mas depois do almoço o calor era tanto que nos esgotou a energia e tivemos de arranjar alternativa. Voltámos ao Pagode Shwedagon - o maior templo do Myanmar - para aproveitar as sombras, descansar e observar a vida local a passar calmamente.

Em jeito de conclusão deste diário, podemos afirmar que gostámos muito desta viagem pelo Myanmar e estamos felizes por termos optado por este destino. Superou em muitos aspetos as nossas expectativas, em especial devido à forma afável como as pessoas interagiram connosco. Porém, nem tudo é perfeito e desiludiu-nos um pouco o peso que o turismo já está a ter em Bagan e no lago Inle - embora ainda nada comparável com o que se passa no resto do mundo.

Mas haverá alguma parte do mundo que ainda não sofra da pressão desmedida do turismo? Achamos que sim. Exemplo disso é Mrauk-U, uma região cujos acessos, por enquanto, ainda são muitos complicados, que não tem ruas inteiras de restaurantes destinados apenas a turistas e onde as pessoas ainda se vestem de sorrisos genuínos.

Na foto, o espetacular templo Htukkanthein, em Mrauk-U, cujo interior contém um corredor em espiral até uma câmara central, repleto de quase duas centenas de estatuetas de Buda.

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