quarta-feira, dezembro 07, 2016

Myanmar - Diário de Viagem (Semana I)

Dia I - Chegada a Yangon

Chegámos a Yangon (a maior cidade do Myanmar) antes da hora de almoço, depois de um voo tranquilo, embora cansativo como são todos os de longo curso em que não se prega olho. Com o estômago todo baralhado, a escolha da comida tem sido cuidadosa e ainda não nos aventurámos nas iguarias de rua. A fruta tem toda um aspeto delicioso, já o resto não me tem despertado a curiosidade.

Este primeiro dia foi um tiro certeiro: como era dia de lua cheia, apanhámos um dos maiores festivais do país: o Tazaungmon. Também conhecido como festival da luz, leva milhares de budistas aos templos. Os mais velhos rezam e acendem velinhas, as mais jovens vestem o melhor vestido para sobressairem nas selfies.

Para além do cansaço (normal) e do calor abafador, temos o cérebro em sobrecarga de informação e o coração cheio de sorrisos com que nos presenteiam amavelmente.

Dia II - Yangon

Acredito que a baixa de Yangon tenha sido esplendorosa há muitas décadas atrás. Hoje em dia, por entre prédios coloniais em decadência com janelas e varandas gradeadas, um emaranhado de fios e trânsito caótico, a vida fervilha - tudo se vende, tudo se compra.

Depois de almoço, demos a volta à cidade de comboio, na chamada Circle Line. Durante cerca de três horas, um corrupio de gente passou-me à frente dos olhos enquanto descansava num dos bancos laterais da carruagem: jovens e menos jovens, homens e mulheres, vendedores de bebidas e de fruta, gente sozinha e mães a amamentar, uns transportavam colchões, outros molhos de folhas secas...

Decidimos não fazer a totalidade do percurso, optando por sair numa estação que parecia próxima do Chauck Hiat Gyee (buda gigante deitado). Na plataforma, um senhor de meia-idade abordou-nos de imediato na língua local, certamente intrigado por ver dois ocidentais por ali. "Where's the exit?" - perguntei-lhe eu, perante o olhar confuso dele. Até que me lembrei de usar o mais básico: "Taxi... taxi...". A expressão do homem mudou e desatou a gesticular alegremente num sentido que, apesar de improvável, nos permitiu seguir o nosso caminho com sucesso.

Ao jantar pedimos barbecue de coxas de frango, pois quando nos aproximámos do restaurante reparei nos belos grelhados que uma miúda estava a fazer. Para grande surpresa nossa, as coxas chegaram, não inteiras (como qualquer português gosta), mas todas despedaçadas juntamente com os ossos, como se o comboio lhes tivesse passado por cima.

Pagode Shwe Dagon

Dia III - Yangon

Em Roma sê romano - sempre que viajo tento seguir este conselho. Não me refiro apenas ao respeito pelo modo de vida local, mas também à gastronomia e indumentária. A longyi é uma espécie de saia muito prática, típica do Myanmar, que hoje me serviu de farda para mais umas aventuras. Se não me garantiu o respeito dos birmaneses, pelo menos despertei sorrisos e vénias com quem me cruzei.

A parte da baixa de Yangon conhecida como Chinatown é impressionante pela incessante agitação. Temos de andar com os sentidos sempre alerta para não sermos passados a ferro nas passadeiras, não chocarmos com os vendedores que ocupam os passeios quase na totalidade não pisarmos nada de que nos venhamos a arrepender mais tarde. Este lugar está repleto de sujeitos interessantes, mas fico tão atordoado com tantas coisas novas e o calor abrasador tem-me deitado de tal maneira abaixo que quase não tenho dado uso à câmara.

O zodíaco budista do Myanmar é composto por oito animais. A sorte de cada um é ditada pelo dia da semana em que se nasce: o meu, sexta-feira, é o porquinho-da-india; o da Sofia, sábado, é o dragão. Perguntei ao suposto ex-monge/voluntário/angariador-de-fundos-para-um-orfanato que nos ensinou isto se não podia ser antes o dragão ou o elefante. Ele mostrou-se surpreendido pela pergunta e disse que o porquinho-da-india é o melhor de todos, pois foi nesse dia que nasceu não apenas Buda, mas também o Barack Obama.



Dia IV - Chegada a Mrauk-U

Viajámos de avião de Yangon para Sittwe, a principal cidade do estado de Rhakine. Convido-vos agora a entrar connosco no pequeno carro citadino importado em segunda-mão do Japão (como a quase a totalidade dos que circulam no Myanmar) que nos levará até Mrauk-U (pronunciado Miá-U). Aviso já! São cerca de 140km por buracos com algum alcatrão pelo meio, dificilmente feito em menos de três horas e meia.

Em Sittwe, iremos constatar de imediato que esta zona é muito mais pobre do que Yangon e que é dominada por motos nas ruas. A presença militar é constante, com postos de controlo e quartéis por todo o lado. Os soldados, com as suas fardas verdes e chapéus com apenas um dos lados levantados, observarão atentamente cada um dos nossos passos.

Quando deixarmos a cidade para trás, entraremos numa extensão infindável de campos de arroz trabalhados por homens com chapéus cónicos. Encontraremos várias esplanadas junto à estrada com as suas típicas cadeiras e mesas de plástico coloridas rentes ao chão, nas quais os donos esperam pacientemente por clientes.

Aqui e ali um pagode dourado ou um buda gigante quebrarão a homogeneidade verde da paisagem. Com o passar do dia, surgirão tonalidades douradas que se refletirāo no rio Kaladan. Eu certamente ficarei a imaginar os exploradores portugueses a subirem este rio no século XVI, sem mapas, sem GPS, sem saberem bem o que iriam encontrar, apenas que havia por ali uma cidade que era a mais importante de uma vasta região.

Mais tarde, tenho a certeza que o manto negro da noite nos envolverá, deixando milhões de pontinhos luminosos a fazer-nos companhia no saltitar da viatura. Se virem vultos na estrada, não temam: o motorista é experiente nestas andanças, não fala uma única palavra em inglês, mas domina a linguagem da buzina como se fosse código morse. Desta forma, poderá alertar os peões e negociar qual dos carros vai sair da parte asfaltada e ceder passagem aquando do cruzamentos dos veículos.

Tenham a certeza que chegarão inteiros a Mrauk-U, ainda que com o corpo todo dorido. Não tenham receio da infestação de insetos que vos esperará, afinal de contas hoje à noite dormiremos rodeados pela selva e por campos de arroz.



Dia V, VI e VII - Mrauk-U e chegada a Bago

Estes três dias foram muito bem passados, mas não pudemos relatar o nosso diário, porque estivemos sem acesso à internet em Mrauk-U, uma das zonas mais remotas do Myanmar. Sobre esta magnífica região falaremos mais tarde...

Neste momento estamos a descansar em Bago, depois de um dia inteiro de viagem, usando cinco meios de transporte diferentes. Em Sittwe, ao almoço, sem querer fomos penetras num casamento tradicional onde comemos vários pratos de frango que "souberam a pato".

As fotografias em baixo retratam mulheres de uma aldeia da etnia Chin, perto de Mrauk-U. As primeiras fotos foram tiradas com a sua autorização, as segundas depois de pedir ao nosso intérprete para lhes dizer que eram bonitas.







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