quarta-feira, maio 04, 2016

Um habitante do deserto no Japão

A Namíbia é um país belíssimo, de largas distâncias vazias. Ao longo de muitos quilómetros não se vê ninguém e as paisagens de que me lembro são áridas e monocromáticas, ora castanhas, amarelas, vermelhas ou totalmente brancas.

Foi na paisagem avermelhada das dunas de Sossusvlei que o conheci: sorridente, bem-disposto e com um memorável sentido de humor. Contou-nos como os seus antepassados sobreviveram no deserto, mostrando-nos que plantas e insetos comiam e como encontravam água. Contou-nos como, quando era pequenino, escapou com o seu avô à aparição de um leão: “Não te mexas, olha para o chão e levanta os braços, para pareceres uma árvore”. E contou-nos também como conheceu a sua mulher, uma japonesa de viagem pela Namíbia. O casamento foi no Japão - disse-nos - e, nesse dia, usou sapatos pela primeira vez na vida. Entretanto, a mulher dele foi viver para a Namíbia, onde também é guia no deserto, e anda - claro está - sem sapatos.

Hoje, ao recordar o Japão, lembrei-me dele e da sua vida num dos países menos povoados do mundo. O que terá pensado quando andou de avião? Quando viajou num comboio japonês a mais de 300 km/h? Quando se deparou com as multidões de Tóquio, uma cidade com 13 milhões de habitantes? Quando, à noite, viu a cidade iluminada por milhares de luzes em vez do céu com milhões de estrelas? O que pensou ele, para quem o mundo era o deserto?

Não sei. Apenas sei que eu própria fiquei surpreendida com tudo o que vi por lá e guardo dentro de mim o seu sorriso aberto ao falar-nos do Japão.







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3 comentários:

  1. É um prazer ler os vossos textos e admirar as vossas fotografias. Faz-nos sentir no local :-) Parabéns!!

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  2. Mundos tão diferentes unido pelo amor de 2 pessoas, incrível os contrastes em todos os sentidos.Linda colagem de fotos.

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