terça-feira, abril 19, 2016

Japão - Diário de Viagem (Semana III)

Dia XV

Hoje sinto-me apenas um no meio de 37 milhões. Em Tóquio, o fluxo constante de gente é algo que não nos deixa indiferentes. Logo eu, que gosto é de natureza e de me sentir à solta...

Foi dia para passear na zona de Shinjuku, cuja estação de comboios é considerada a mais movimentada do mundo. Tivemos oportunidade de ver a cidade desde o piso 45 do Tokyo Metropolitan Government. De seguida, deixámo-nos levar pela loucura de Kabukicho, onde uma mistura de néons, slot machines, restaurantes e "casas de massagens" coabitam num frenezim contagiante. Mesmo ali ao lado, Shinjuku Golden-gai é o exemplo de como uma zona decadente se torna de repente trendy, com os seus pequenos bares, nalguns dos quais cabe menos de meia-dúzia de pessoas.

Esta noite vai ser passada num hotel-cápsula: uma fila de gavetões que parecem retirados do filme Blade Runner. Vamos lá ver se dá para descansar...




Dia XVI

Dormir na cápsula não foi muito diferente de ficar num hostel. O que salta à vista é a diferença nos hóspedes: nos hostels incentiva-se a socialização, nos cápsula parece ser exatamente o oposto. Para além dos viajantes e turistas, os hotéis-cápsula são usados por empregados de escritório (vulgo engravatados), cada um metido na sua vida, absorto nos seus pensamentos. Para descansar depois de um dia em que se andaram a pé quilómetros sem fim, serve perfeitamente.

Depois de duas semanas a ver templos e santuários, confesso que já estava a ficar farto. Porém, dado que hoje o tempo estava farrusco, decidimos ir a Nikko e ainda bem que o fizemos. Esta pequena localidade, a duas horas de comboio de Tóquio, possui um conjunto de templos inscritos na lista de Património da Humanidade da UNESCO, atraindo os enxames do costume, completamente cegos a seguirem a bandeirinha, levando à sua frente tudo e todos como se o mundo fosse acabar. Seja como for, valeu definitivamente a pena.

Regressámos a Tóquio já o sol se tinha escondido. Como tal, aproveitámos para conhecer outro bairro famoso pelas suas luzes e animação - Akihabara - também conhecido como Electric Town. Por estas bandas, há prédios inteiros dedicados a anime, manga, cosplay e salões de video-jogos frequentados por pessoas de todas as idades. Não foi fácil reconhecer os songokus, narutos e outros personagens que acompanhei enquanto jovem, no meio de tanta "macacada" como lhe chama a Sofia.




Dia XVII

3776 são os metros a que o monte Fuji se encontra acima do nível médio do mar. Esta bela e majestosa montanha foi uma das minhas primeiras imagens do Japão, quando ainda era uma criança. Hoje foi dia de contemplar ao vivo este colosso! A viagem para lá a partir de Tóquio, usando os comboios, é demorada. Compensa, todavia, a nível económico face aos autocarros-expresso (para quem tem o Japan Rail Pass).

Com a manhã quase toda perdida em viagem, quando chegámos, o Fujisan encontrava-se escondido, envolto num manto de nuvens. Um pouco desanimados, não querendo desistir, esperámos. Esperámos.

Finalmente mostrou-se, mas já eram quase 3 da tarde e nós sem termos almoçado. O repasto foi por ali mesmo: um fabuloso caldeirão de hoto, ou seja um esparguete grosseiro (tipo udon) num caldo delicioso de legumes e cogumelos.


Dia XVIII

Mais do que palavras, hoje partilho um conjunto de fotos de um dia em Tóquio, que começou com uma grande chuvada, mas a que soubemos dar a volta, aproveitando o tempo ao máximo.








Dia XIX

Gostam de caminhadas pelo meio da natureza? Imaginem então que têm pela frente um percurso por entre árvores Acer e que o solo está coberto de pétalas de flores de cerejeira, como se tivesse nevado. Imaginem ainda que, nas zonas mais inclinadas, as raízes das árvores servem de escadas e que todo o percurso é feito ao som do cantar de diversos pássaros. Não é suficientemente interessante? E se, a meio, houver santuários xintoístas onde impera a paz e as pessoas rezam, meditam e sorriem enquanto fazem piqueniques? E se o percurso terminar no templo Kōtoku-in onde existe um Buda gigante?

Não tínhamos grandes expectativas em relação a Kamakura. Receávamos que fosse a típica tourist trap, mas revelou-se um dos dias mais bem passados de toda a viagem, tendo começado num templo zen, onde assistimos parcialmente a uma celebração. Tivemos de abandonar o local, porque a agitação, a ânsia de filmar com o telemóvel, tablets (e sei lá mais o quê) de outros visitantes estava a deixar-me profundamente irritado, quando o objetivo era exatamente o oposto. Custa-me a compreender aquele frenesim de cameraman por parte da maioria das pessoas, em vez de sentirem o momento, que era belo e único, sem distrações.

À tarde, regressámos a Tóquio, onde nos deparámos com uma festa gigante de hanami (uma espécie de piquenique nos jardins, debaixo das cerejeiras em flor). Grande parte das pessoas que participam nestes eventos são os tais "engravatados" que, pelos vistos, se reúnem depois do trabalho para conviverem com alegria.








Dia XX

Façam-se pequeninos e venham fazer-me companhia na cápsula onde tenho estado a dormir em Tóquio. As cápsulas são quartos de hotéis minúsculos onde só cabe praticamente o corpo de uma pessoa. Não me consigo pôr de pé mas, se me sentar, sobra um palmo até ao teto. Do meu lado esquerdo, há uma estante estreita por baixo de um espelho, além de um relógio com despertador, uma ficha de eletricidade e outra USB. Do lado direito, há uma cortina de bambu a todo o comprimento que corro para ter privacidade. Por baixo da minha, há outra cápsula e, nos corredores vizinhos, dezenas de outras.

As cápsulas das mulheres ficam no quarto andar, as dos homens no segundo e no terceiro. A receção também é no terceiro andar onde, todas as noites, nos dão um saco com um pijama japonês, uma toalha para as mãos e outra para o banho, além de vários saquinhos com escovas para o cabelo e dentes, esponja para o banho, toalhitas de limpeza e cotonetes. Todos os chuveiros têm gel de banho, champô e amaciador.

Tanto no piso dos homens como no das mulheres, existe uma sala de estar com várias mesas e as casas de banho têm sanitários e chuveiros individuais. No andar das mulheres, há ainda uma sala de maquilhagem que tem secadores para o cabelo, onde as japonesas passam bastante tempo de manhã.

Os sapatos ficaram à entrada do piso, num cacifo. Há outros para guardamos os nossos valores e as malas pequenas (as maiores ficaram em armários de correr).

Este é um hotel-cápsula moderno, muito limpo e com bom-gosto, na sua simplicidade. Estão bem instalados? Quantos já somos dentro da cápsula a ler este texto?

Apesar da proximidade das cápsulas e de, no fundo, dormirmos no mesmo espaço, as pessoas não se cumprimentam quando se cruzam - como que a reforçar a sua individualidade (isto já sou eu a fazer suposições). Seja como for, fiquei a remoer quando, na primeira manhã, não me responderem a nenhum cumprimento ou sorriso, mas depois passou-me.

Na entrada do nosso hotel, há um "onsen" para os pés, isto é, uma pequena piscina com água quente. No rés-do-chão, existem ainda duas mesas onde posso estar com o Paulo e donde observo os hóspedes que entram: a maioria são japoneses com aspeto cuidado - os homens com fato escuro e gravata, as mulheres com blazer e saia. Nós, os turistas, somos os mais informais.

Os maiores inconvenientes deste alojamento são o ruído à noite e o facto de não haver um espaço comum para homens e mulheres: o ruído atenua-se com tampões gratuitos; a falta da área comum com saudades e com a vossa companhia enquanto escrevo este texto. Com jeitinho, caberemos todos nesta cápsula quando me lerem.

Termino com algumas fotos do dia de hoje.








Dia XXI

Chegou ao fim a nossa aventura no Extremo Oriente. Amanhã o dia vai ser passado a fazer aquela parte desagradável de viajar: 18 horas fechados numa caixa de fósforos até chegarmos à saudosa pátria.

Em jeito de balanço e ainda a quente, esta viagem superou em muito as nossas expectativas, que já eram bem altas antes da partida. Comida variada e deliciosa, natureza bela e bem conservada, história e cultura ricas e complexas, povo amável e educado, cidades limpas e organizadas, supresas e exotismo a cada virar de esquinha, que mais se pode pedir? Talvez que os preços fossem mais simpáticos para um português trabalhador...

Hoje ainda deu tempo para irmos ao Hitachi Seaside Park e à Nakano Broadway: dois locais onde o número de estrangeiros é mesmo muito baixo, mas onde os japoneses se divertem à grande. O primeiro é um parque enorme no qual existe uma grande variedade de flores que vão mudando a paisagem cromática ao longo do ano. Neste mês, predominava o azul, o amarelo e cores variadas nas tulipas. O segundo é um bairro de lojinhas, restaurantes e casas de diversão, em Tóquio, tudo com um aspeto retro, contrastando com as grandes zonas comerciais modernas dos department stores.

Termina assim o nosso relato. Espero que tenham gostado e que talvez tenha servido de incentivo para meterem os pés ao caminho. :)







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