quinta-feira, abril 14, 2016

Japão - Diário de Viagem (Semana I)

Dia I

Devido à greve dos controladores aéreos em França, o voo em que partimos de Lisboa sofreu um atraso severo que teve por consequência a perda da ligação para Tóquio, em Frankfurt. Se, por um lado, isso transformou uma viagem já longa de 18 horas em 25, por outro permitiu viver na primeira pessoa experiências interessantes: a confusão do aeroporto de Pequim, o tremendo smog que paira sobre essa cidade e o magnífico serviço da Japan Airlines.

Neste último salto, tive o prazer de comer a refeição mais deliciosa que alguns vez experimentei a mais de 10 mil metros de altitude, um regalo tanto para o palato como para os olhos: salada de legumes com salmão cru; noodles com algo que desconheço, mas que era muito bom; arroz com uma carne indecifrável, mas muito saborosa; salada de fruta e gelado Häagen-Dazs. Para beber, experimentei uma cerveja japonesa chamada Kirin, de sabor normal, tendo achado sobretudo piada ao nome de cariz mitológico. Tudo servido com uma simpatia contagiante e meia-dúzia de vénias à mistura. Deu ainda para reparar em pormenores curiosos como, por exemplo, a opacidade das janelas ser regulada eletronicamente.

Enquanto escrevo este texto, viajo a mais de 300km/h sentado no Hikari, um Shinkansen (comboio rápido japonês, também conhecido como comboio-bala) que nos levará até Quioto. O nosso jantar vai ser igualmente à velocidade de cruzeiro no próprio comboio, tendo como base umas caixas bento compradas previamente na estação, bem ao estilo do que faz uma grande parte dos habitantes de Tóquio.


Dia II

Li há algum tempo que quem vem para o Japão passa por três fases:

1) Deslumbramento: em especial para quem gosta da cultura japonesa, o primeiro contacto passa por sucessivamente encontrar algo que se acha fantástico (voltarei a este ponto);

2) Frustração: quando, depois de se estar no país mais do que um mês, se continua sem compreender devidamente os hábitos e as tradições, e a língua continua a ser uma barreira;

3) Aceitação: nesta fase, o estrangeiro deixa de se tentar integrar à força, relaxa e vai-se familiarizando aos poucos.

Estou na primeira fase e creio não ficar tempo suficiente para passar pelas outras, porém compreendo-as. Dá perfeitamente para desenrascar (se não for por palavras, é por gestos), mas há sempre algo que se perde quando se sai do beaten track e não se gosta de andar com guias. Fico furioso, no meu interior, quando um simpático japonês desata a falar na língua dos samurais, como se já não falasse com ninguém há semanas, e eu sem perceber patavina.

Na fase do deslumbramento, acha-se graça tanto a coisas simples como a algumas mais profundas. Enquanto descansávamos um pouco numas escadas, a Sofia pousou a câmara dela, que ficou por lá esquecida, só se lembrando desta mais tarde. Voltámos ao local e, para surpresa minha, a câmara tinha sido colocada numa plataforma ao lado das escadas para que ninguém a pisasse por acidente. Noutra situação, pedimos indicações a uma família apontando para o mapa. De início, não sabiam onde era o local, mas a situação rapidamente se tornou naquele sketch do Gato Fedorento, acabando por nos convidarem por gestos a segui-los, que também iam para lá, sendo o senhor mais velho o guia. A rapariga mais nova perguntou de onde éramos e quando dissemos Portugal responderam todos juntos "uuuuhhhaaa segoi", que pelos vistos quer dizer fantástico. E se vos contar que, no restaurante onde almoçámos hoje, o dono pediu para assinarmos os nossos nomes num mapa e para nos tirar uma foto com uma daquelas Fuji Instax ao estilo polaroid, para afixar na parede?

Temos comido lindamente, uma mistura de cores e sabores que apetece devorar, tudo sempre servido com enorme simpatia e mestria. O ponto menos positivo da viagem foi termos falhado o sakura (floração das cerejeiras) em Quioto por uma semana. Quem vier no fim do mês vai apanhar um cenário de sonho.




Dia III

Já tinha ouvido falar nos demónios do jetlag e sido apresentado aos mesmos, mas nunca me deparei com um assim. O meu problema tem sido conseguir descansar uma boa noite de sono. Manter-me acordado só tem sido complicado nos transportes mas, pela quantidades de turrinhas japonesas que tenho levado nos autocarros apinhados, parece que não é necessário sofrer de insónias para passar pelas brasas em público. Apesar do cansaço, tenho conseguido aguentar com apenas 3 horas de sono com sonhos agitados, mas sinto que isso começa a afetar a minha capacidade cognitiva bem como a falta de paciência.

Hoje o dia, em Quioto, foi super preenchido, visitámos um sem número de templos, jardins e santuários. Foi ainda possível experimentar em primeira mão a diferença entre viajar à solta e o turismo de massas.

No primeiro caso, devido a uma confusão no nome de um templo, fomos parar a um pouco visitado, mas fantástico. A paz e o sossego reinavam, os jardins eram mesmo zen, viam-se jovens monges a limpar metais e japoneses a transcrever textos nos seus elegantes caracteres -  não consegui perceber qual o motivo. Depois de perguntar a uma jovem se estavam a rezar ou simplesmente a treinar a caligrafia, ela desfez-se em sorrisos, apontando-me para lá como a indicar que também eu o podia fazer. Depois de alguma insistência minha, acabou por ficar nitidamente envergonhada e soltar apenas um lamento entre sorrisos e vénias: "Sorry" - acabou por dizer. Maldita barreira linguistica!

No segundo caso, fomos ao Kinkaku-ji (templo dourado), marcado como top das atrações em Quioto. Senti-me um cordeiro no meio de um gigantesco rebanho de fotógrafos de selfies, encaminhados à pressa ao longo de fantásticos jardins em que mal dava para contemplar a beleza do local, terminando num mercadinho onde o mercantilismo selvático imperava ao contrário da serenidade de outros locais. 5€ mais tarde, senti que teria ficado quase tão bem servido através de uma consulta de postais.

Felizmente, o mesmo não digo do Fushimi Inari Taisha, que embora dominado por hordas, é tão grande que dá para deambularmos ao nosso gosto pelo túnel infinito de torii (aquelas típicas portas japonesas de cor laranja/vermelha ou de pedra que marcam o limite entre o sagrado e o profano).




Dia IV

Temos uns amigos que nos andam a tentar convencer a experimentar carne wagyu em Lisboa, mas até agora nunca se proporcionou. No outro dia em Quioto, enquanto procurávamos um restaurante de ramen (uma espécie de noodles num caldo delicioso), vi num dos exuberantes cartazes anunciarem a dita carne por cerca de 15€, tendo o local bom aspeto. Memorizei a localização para voltar mais tarde. Assim fizemos, mas mal entrei fiquei logo desconfiado, porque parecia requintado demais para aquele preço. As minhas suspeitas vieram a confirmar-se: o bife propriamente dito custava aproximadamente 100€! Ficámos pelo que percebi, mais tarde, ser apenas uma entrada à qual juntámos mais dois petiscos e duas cervejas. A dada altura, a menina aproximou-se da Sofia com uma série de carteirinhas, pedindo-lhe para escolher uma. "Queres ver que para além do rombo no orçamento ainda vou ter de comprar isto?" - pensou ela. A menina insistiu depois de perceber a nossa expressão confusa: "Present! Present!" - esclareceu. Se há coisa que me fartei de ler sobre o Japão é o hábito de darem presentes e ser uma ofensa não os aceitar.

Hoje de manhã, saímos do burburinho de Quioto e fomos fazer uma caminhada entre as aldeias de Kurama e Kibune. Já fiz muitos passeios por lugares memoráveis no meio da natureza mas, quando juntamos cedros com vários séculos, santuários xintoístas e uma paz e sossego apenas quebrados por corvos e os "chocalhos" dos templos, continuamos a elevar a fasquia.

A tarde foi passada na baixa de Quioto a deambular pelo mercado repleto de produtos com aspeto delicioso. Antes, ainda entrámos num salão de arcades mas, ao contrário do que esperava, estava repleto de adolescentes a tentarem ganhar peluches em máquinas, a jogarem algo parecido ao guitar hero versão tambores japoneses e também multidões de miúdas a maquilharem-se para tirarem fotos numas cabines que supostamente as fazem parecer mais bonitas. Uma senhora já de idade, tendo conseguido ganhar vários biscoitos e chocolates, veio na nossa direção e colocou-nos à força uns bolinhos nas mãos sem termos tido tempo de pestanejar. Agradecemos com o nosso melhor arigato gozai-más e uns sorrisos sem jeito.




Dia V

Nara foi a primeira capital permanente do Japão, no século VIII. Hoje em dia, não tem a importância de outros tempos, mas é um dos principais destinos culturais, religiosos e turísticos do país. Foi lá que passámos grande parte do dia de hoje entre estátuas gigantes, templos com vistas fabulosas e veados à solta. Estes dóceis animais andam em liberdade pelo parque sempre atentos aos turistas, na expectativa de lhes calhar um biscoito (há-os à venda, criados especificamente para este efeito).

No templo Todaiji, o principal de Nara, vimos um Buda gigante de bronze e presenciámos um episódio caricato em que as pessoas tentam passar por um estreito buraco numa coluna que sustenta o telhado, supostamente do mesmo tamanho de uma narina do Grande Buda, com vista a saírem de lá iluminadas. Apenas pessoas magrinhas conseguem realizar a façanha com sucesso.

Outro ponto alto da visita a Nara foi deambular por entre centenas de lanternas de pedra do templo Kasuga Taisha. Deve ser um espetáculo fabuloso o festival das lanternas em fevereiro e agosto, quando as acendem todas!

Como os dias anteriores foram muito cansativos, decidimos passar a tarde em estado Zen no templo Tofuku-ji, já de volta a Quioto. Os jardins estavam tristonhos devido à nudez das árvores. A melhor altura para os visitar será no Outono quando as folhagens se tornam avermelhadas. Seja como for, não queríamos deixar Quioto sem visitar um jardim Zen e este templo é uma boa alternativa ao mais conhecido, mas apinhado, Ryoan-ji.






Dia VI

Acreditando na velha crença de que depois de dobrar mil garças-azuis de papel é concedido um desejo, uma menina chamada Sadako tentou recuperar da sua doença fazendo mil origamis. O seu esforço foi em vão. Depois da sua morte, um monumento pela paz foi erguido em Hiroshima para consolar a sua alma e a de todas as crianças vitimas da bomba atómica. Hoje em dia, as garças de papel são vistas em todo o mundo como símbolo da paz e as crianças honram a memória de Sadako tocando o sino do seu monumento. Depois de chorar baba e ranho ao tomar conhecimento desta história, tudo o que vimos durante o resto do dia perdeu importância.


Dia VII

Desde criança que o Japão faz parte do meu imaginário e dos meus sonhos. O primeiro contacto foi através de um quadro do monte Fuji que havia lá por casa; o segundo foi através do torii de Miyajima, num livro de lugares maravilhosos do nosso planeta e, aos dez anos, foram os videojogos que me introduziram a um mundo fantástico de samurais, templos e honra. Há 20 anos, comi pela primeira vez comida japonesa e desde então nunca mais deixei de ser fã. Hoje foi tempo de tornar realidade uma dessas imagens que, na altura, me parecia apenas uma miragem: Miyajima.

Ao final da manhã, deixámos essa pequena ilha sagrada perto de Hiroshima, onde vivem espiritos xintoístas e veados em liberdade, e fizemo-nos viagem até Osaka, com uma paragem em Himeji, para vermos um dos mais impressionantes castelos japoneses. As cerejeiras continuam fechadas em milhares de botões, mas tivemos o bónus de assistir a uma festa japonesa no recinto do castelo: barraquinhas com comida deliciosa, pessoas sorridentes e calorosas, muitos bonecos animados em tamanho real e crianças tão contentes que corriam de braços abertos para os abraçar.

À noite, ainda juntámos forças para ir ao centro de entertenimento de Osaka, a uma zona chamada Dotonbori, com milhares de reclames luminosos e ruas intermináveis de lojas.

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