quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Em Ílhavo, dizem que há um dos melhores museus do séc. XXI

Quando era pequenina, pensava que os bacalhaus eram peixes achatados, como os linguados ou as raias. Mais tarde, descobri, com surpresa, que não são planos como os vendem no supermercado e que muitos povos os comem frescos.

Há uns dias vi-os, pela primeira vez, com vida no Museu Marítimo de Ílhavo. Só por isso valeria a pena visitar este espaço museológico, para mim um dos mais interessantes do nosso país e, para os estrangeiros do ArchDaily, um dos mais espetaculares do século XXI.

O edifício é composto por cinco salas. A primeira chama-se Faina Maior e é sobre a pesca do bacalhau, com uma réplica em tamanho real de um barco usado pelos portugueses nos mares do Norte. De uma forma simples e nada maçadora, aprendemos, por exemplo, que estes homens-coragem eram na sua maioria de Ílhavo e que, durante os séculos XIX e XX, pescavam o bacalhau à linha em dóris, ou seja, em botes frágeis e esguios de um só homem. Cada um ficava durante várias horas sozinho no mundo, no meio de um mar longínquo, da escuridão e do frio.

Depois do “lugar onde se guardam as memórias desta aventura humana”, passamos à grandiosa Sala da Ria, observando dez embarcações típicas da Ria de Aveiro, igualmente em tamanho real. O moliceiro e o saleiro são os barcos maiores, recordando-nos atividades praticamente desaparecidas no nosso país, como a apanha do moliço, a extração e o transporte de sal, além da pintura colorida da proa das embarcações.

No átrio superior, depois de visitarmos com entusiasmo a Sala das Conchas e Algas, a Sala dos Mares e a Sala de Arte, subimos por fim uma rampa que conduz ao aquário dos bacalhaus. Lemos nas paredes do edifíco diversas informações sobre o peixe-mais-famoso-de-Portugal até que, sem aviso, me aproximo de um pequeno muro, espreito e ali estão eles, a nadar serenos por baixo de mim, sós como os homens nos dóris.

A rampa desce depois em espiral e mergulho no aquário, sempre com os olhos postos nos bacalhaus. Até que me sento na última etapa, os meus olhos nos das outras pessoas que os admiram de cima, fascinadas por este peixe indiferente a todos nós.

Porque não somos peixes, há que guardar e visitar a memória dos homens estóicos que viveram antes de nós. São eles que nos emprestam identidade e auto-estima como portugueses e que, juntamente com os bacalhaus vivos, tornam este museu realmente especial.















Mais informações: www.museumaritimo.cm-ilhavo.pt

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4 comentários:

  1. Curioso, eu desde criança que como bacalhau fresco. A minha mãe comprava-o do outro lado da fronteira. Vantagens de morar longe da capital! Afinal vai havendo algumas :-) Tanto quanto sei, o embaixador da Noruega andou a fazer campanha para o tentar introduzir fresco em Portugal. Não sei se a moda pegou.

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  2. Olá Sofia: que bom que gostaram do Museu Marítimo de Ílhavo. Também o considero um dos melhores de Portugal. Visitei-o há poucos meses e partilhei no blogue a minha experiência (http://www.documentaromundo.com/2015/12/a-tradicao-do-bacalhau-em-portugal.html). Não sei se chegaram a conhecer o Navio-Museu Santo André. Há um bilhete combinado (que na altura não me informaram) e para quem tem interesse, este deve ser o ponto de partida. Gostei de recordar este museu especial e parabéns ao Paulo pelas fotos.

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    1. Olá Eva, a nós informaram-nos do bilhete combinado (Navio-Museu Santo André + Museu Marítimo de Ílhavo). Aliás, tencionávamos começar a visita pelo navio, mas quando chegámos havia uma fila impossível de senhores de idade à nossa frente, acabados de chegar em vários autocarros. Teremos de voltar noutra altura. No Museu Marítimo, aconselharam-nos a regressar no início de Agosto, aquando do Festival do Bacalhau. Está na agenda!

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  3. Muito bom! Quando voltar a esses lados tenho de visita-lo certamente.

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