terça-feira, janeiro 05, 2016

De Carro até ao Sudeste de Espanha - Diário de Viagem

Já percorremos quase toda a Espanha de carro. Faltava-nos La Alpujarra, uma zona mítica para os espanhóis, situada na parte sul das montanhas mais altas da Península Ibérica, nas proximidades de Granada. Faltava-nos ainda a província de Múrcia e o Palmeiral de Elche, declarado Património da Humanidade, que há muito desejávamos conhecer. Foram 6 dias intensos, cujo diário escrevemos e partilhámos dia-a-dia na nossa página do Facebook, para inspirar outros viajantes e para recordarmos quando formos velhinhos.

Dia 1

Antes de começar mais uma road trip pela nossa vizinha Espanha, ainda tivemos tempo para contemplar o nascer-do-sol em Trás-os-Montes. Estas paisagens melancólicas revitalizam-nos a alma, especialmente quando temos de superar desafios, como escalar os amontoados de pedras arredondadas, conhecidos por Caos Granítico.



Neste momento, estamos a descansar na pequena vila de Hervás depois de um belo repasto à base de boletos selvagens. Foi possível calcorrear a judiaria e contemplar a curiosa arquitetura dos seus edifícios, mas o verdadeiro passeio terá de ficar para amanhã, à luz do dia. As ruas, onde apenas os gatos teimam em deambular ignorando o frio, são estreitas e muito mal iluminadas. Já os bares estão cheios de pessoas a beberem copos de Vino de Pitarra acompanhados por montaditos (fatias de pão com petiscos variados em cima).


Dia 2

Hoje, quando acordámos em Hervás, estava a chover. Por isso, não tirámos as fotografias que tínhamos planeado na famosa judiaria da localidade. O dia, chuvoso, foi passado quase todo na estrada, com uma breve paragem em Zafra para almoçar.

Mais de 600 km depois, encontramo-nos nas proximidades de Granada, onde já tínhamos estado em 2011, altura em que visitámos o incrível Allambra. Amanhã seguiremos viagem para leste, em busca das terras onde se refugiaram os exilados Mouros de Granada.

Dia 3

La Alpujarra foi o último refúgio dos Mouros depois da reconquista de Granada em 1492. É uma região montanhosa na encosta sul da Sierra Nevada, com estradas estreitas e sinuosas. No meio das serras de tons castanhos monótonos, sobressaem aldeias de casas brancas sem telhado, como Soportújar, Pampaneira e Trevélez, a fazer lembrar as que vimos em Marrocos. Nas ruelas, apertadas e íngremes, há gatos fugidios, fontes de água pura, sardinheiras nas janelas, cortinas de pano a cobrir as portas da entrada e bastantes estabelecimentos para turistas.

Ao almoço, provámos o famoso presunto da região, um queijo branco cujo sabor é parecido ao Roquefort, e matámos saudades da nossa sobremesa espanhola preferida - cuajada com mel.








Dia 4

Começámos o dia no Parque Natural do Cabo de Gata, atravessando paisagens vulcânicas e visitando praias invulgares, como a Praia de Mónsul. Hoje estavam 21°C. Por isso, aproveitámos para molhar os pés no Mediterrâneo, enquanto turistas mais ousados passeavam nus na areia negra e mergulhavam no mar.

À tarde, entrámos em Múrcia, a última região que nos faltava visitar em Espanha. Esta noite, vamos descansar num convento em Caravaca de la Cruz. Nem de propósito, nesta que é considerada uma das cinco cidades santas do mundo católico, por conservar um célebre crucifixo, no interior do qual se guardarão fragmentos da cruz em que morreu Jesus Cristo.












Dia 5

Hoje começámos o dia na região de Valência, em Elche (ou Elx como lhe chamam lá). Esta cidade pequena para os padrões espanhóis, mas com a mesma população do Porto, é conhecida pelo seu extenso palmeiral, considerado Património da Humanidade pela UNESCO desde 2010. Ficámos surpreendidos ao saber que as técnicas de cultivo e irrigação nos oásis também foram usadas nesta zona da Península Ibérica desde o tempo da ocupação muçulmana.



Depois do almoço, partimos para norte de Benidorm, para uma pequena localidade chamada Guadalest, onde existe um pequeno castelo e santuário em cima de escarpas rochosas, denominado Castell de Guadalest.

Para terminar o dia e o ano, iremos pernoitar num hotel que fica na base do castelo de Sax, uma povoação a norte de Alicante. Pela segunda vez, em Espanha, acabámos por jantar num restaurante chinês de fraca qualidade por ser o único local que encontrámos aberto na noite de 31 de Dezembro - a que os espanhóis chamam noche vieja - altura em que as ruas ficam rapidamente desertas depois das 19 horas.

Desejamos a todos um ano novo muito feliz! Nós continuamos esta viagem no próximo ano...


Dia 6

Partimos em dois o regresso a casa, para não fazermos 1000 km de uma assentada. Decidimos aproveitar para conhecer Almagro e Ciudad Real, na qual iremos pernoitar. Tínhamos posto de parte parar nestas cidades várias vezes em passeios por Espanha. Ainda bem que desta vez não o fizemos.

Almagro é uma pequena localidade que já teve maior importância noutros tempos. É a capital histórica da comarca do Campo de Calatrava, onde a Ordem de Calatrava tinha a sua sede. O seu ex-libris é sem dúvida a Plaza Mayor, rodeada por edifícios com janelas verdes, suspensos sobre colunas, nos quais há alguns bares e restaurantes. Depois de várias tentativas falhadas a tentar provar o prato Rabo de Toro, foi nesta terra que tivemos o prazer de nos deliciarmos em mais uma aventura gastronómica.



Depois do almoço, seguimos para Ciudad Real e deparamo-nos com uma cidade semidesértica, onde apenas as folhas caídas dos plátanos bailavam ao sabor do vento nas ruas. Deixámos o carro no parque do hotel e partimos à descoberta a pé. Numa das avenidas principais e nas praças centrais, apenas havia lojas, cafés e restaurantes fechados. As poucas pessoas que encontrámos moviam-se apressadas entre edifícios como se as ruas estivessem impregnadas com a peste. Sendo uma cidade como tantas outras, demos uma volta rápida e ponderávamos regressar ao hotel quando começou a anoitecer, pelas 18 horas.

Na Plaza Mayor, ouvimos uma espécie de música e aproximámo-nos para ver melhor. O som vinha dos sinos do Relógio Carrilhão que tocavam uma musiquinha enquanto figurinhas representando Dom Quixote, Sancho Pança e o seu criador, Cervantes, dançavam. Eis que tudo muda: no lusco-fusco, as ruas começam a ser invadidas por pessoas como vampiros num frenesim, barraquinhas do mercadinho-de-Natal abrem, carrocéis fazem as delicias dos mais novos e cheira a guloseimas por todo o lado.

Amanhã regressamos a Portugal.





Viagem realizada entre 27 de Dezembro de 2015 e 1 de Janeiro de 2016

9 comentários:

  1. Hoje este artigo fez-me companhia a caminho do emprego e como sempre surpreende pela escrita envolvente e pelas fotografias maravilhosas ... o melhor elogio que posso fazer é que ainda não ía a meio da leitura já estava em viagem ... obrigado

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    1. Olá José, ficamos felizes por saber que aprecia os nossos artigos. Obrigado pelo apoio.

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  2. Olá bom dia... Paulo
    Obrigada por partilhar essa sua viagem... Sou louca por viagens e abriu-me o apetite dar essa volta pelo interior de Espanha... mas a partir do alto Alentejo! As fotos estão espectaculares... e o diário muito elucidativo sem ser fastidioso!!!... Obrigada. E BOM ANO!!!

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    1. Obrigado pelo comentário Magaly. Desde o Alentejo a viagem fica mais curta, há que aproveitar :)

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  3. Olá Paulo: antes de mais, bom ano! Foi bom ler este artigo e recordar alguns lugares por onde já passei. Com exceção de 2015, todos os anos tenho viajado de carro por Espanha e por vezes descubro cidades que não estão no plano inicial mas acabam por se revelar boas surpresas. Obrigada.

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    1. Obrigado Eva. Bom ano para ti e para o Luis também :)

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  4. Todos os artigos, imagens e escrita são da melhor qualidade. Quase viajamos sem sair de casa. Obrigada pela partilha.

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    1. Tão bom saber que desse lado há alguém que gosta do que fazemos. Obrigada!

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  5. Desconhecia que hervas tinha essa famosa judiaria hehehe. Pode ser que este ano faça um pouco desse percurso. Já andámos várias vezes pela Extremadura e Andaluzia até ao cabo de gata, Elche e murcia já me tinham despertado a curiosidade.

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