quarta-feira, dezembro 23, 2015

3 Segredos para Visitar em Marrocos - #3 Kasbah Ait Moussa

Uma das coisas de que mais gostei em Marrocos foi ficar no Kasbah Ait Moussa, em plena rota do deserto. Um kasbah é uma casa fortificada. As suas paredes altas, decoradas com padrões geométricos, erguem-se sobre uma planta quadrangular. Normalmente não têm janelas e, nos quatro cantos, há torres e ameias.

Os kasbahs pertenciam às famílias mais poderosas do sul de Marrocos e serviam de refúgio tanto a pessoas como a animais. Se, nesse tempo, eram edifícios imponentes, hoje em dia estão a desfazer-se com a chuva. É que as suas paredes são feitas de adobe, ou seja, uma mistura de terra, palha e água. Por isso, à medida que nos deslocámos do deserto do Saara para Ouarzazate, em direção às montanhas do Alto Atlas, o meu fascínio por estas habitações majestosas foi também caindo por terra. A maioria dos kasbahs que vimos estavam em ruínas e os mais recentes eram uma versão de mau-gosto dos antigos.

Ainda assim, há muito para ver ao longo da rota do deserto, como oásis incríveis que são como rios de árvores no meio de paisagens totalmente áridas, aldeias de tons ocre nas escarpas desses rios e vários desfiladeiros, como as Gargantas do Todra.

Depois de visitarmos as gargantas, perdemos a cabeça e mudámos de direção, seguindo estrada acima, em direção a Agoudal e a outras aldeias deliciosas no Médio Atlas. Resultado: o tempo voou e tivemos de fazer o caminho para o alojamento de noite, para mim a experiência mais assustadora que vivi em Marrocos.





Se, de dia, as regras de trânsito não são cumpridas, à noite, com a visibilidade reduzida, tudo se torna ainda mais imprevisível. Além disso, o movimento constante de pessoas nas bermas da estrada continua, mesmo debaixo da escuridão, já para não falar de todas as motas e bicicletas que circulam sem luz. Tive tanto medo que o Paulo atropelasse alguém que fiz o caminho quase todo de olhos fechados.

A dada altura, o GPS avisou-nos que estávamos perto do alojamento, mas não o encontrávamos. Percorrido o mesmo troço duas ou três vezes, resolvemos parar junto a um mini-mercado à beira da estrada, para pedir ajuda. Pouco seguros de termos compreendido bem o que nos disseram, virámos um pouco mais à frente por um caminho de terra batida, sem qualquer luz, campos de ambos os lados - o desespero a apoderar-se de mim, até que apareceu o nosso salvador, numa lambreta.

Ao cruzarmo-nos com ele, gritei-lhe: "Hotel! Hotel!". Parou um pouco mais à frente e fez marcha atrás. Praticamente não nos entendemos por palavras, mas fez sinal com o braço para que o seguíssemos. Assim fizemos. Mais adiante, parou e apontou para uns arbustos. O máximo que conseguíamos ver era um caminho estreito no meio de uma vegetação densa. O nosso salvador arrancou, então, a fundo e desapareceu.

Hesitantes, metemos os pés ao caminho por entre a ramagem, tudo escuro como breu, servindo-nos da luz da nossa inseparável lanterna para não cairmos. Até que finalmente ali estava ele: o meu kasbah, aquele que procurara encontrar ao longo do dia, em toda a sua grandeza como na minha imaginação, mas ainda mais bonito.





Entrei no meu mundo de sonho por uma porta de madeira ancestral. Depois, percorri deslumbrada as várias divisões (as salas de estar, os pátios exteriores, o jardim, a piscina, o nosso quarto enorme, com sala, casa-de-banho e terraço privados), tudo decorado com bom-gosto, combinando na perfeição elementos modernos, objetos antigos e artesanato local colorido. Tudo pouco iluminado, adensando o mistério e ajudando à minha viagem no tempo.

O bem-estar que senti nessa noite só foi superado quando, de madrugada, subimos ao terraço para ver o nascer do sol - uma luz encantadora a iluminar todos os palmeiras à nossa volta, casinhas ocres lá ao fundo pintadas de dourado. Como também nunca esquecerei o passeio que fizemos pouco depois por entre os campos, seguindo carreirinhos traçados na terra, reparando nos sulcos para regar as hortas tão bem cuidadas, cheirando romãs e diversas plantas, descobrindo kasbahs em ruínas e cumprimentando as pessoas tímidas que se cruzavam connosco, ora a pé ora de bicicleta, surpreendidas por nos verem ali.

Sim, o éden também existe em Marrocos, mas está muito bem escondido.




Mais informações

  • Refeições: o jantar e o pequeno-almoço estão incluídos no preço do alojamento, o que é muito conveniente, dada a sua localização remota. São ambos excelentes;
  • Website: www.kasbahaitmoussa.com
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  • Reservas: aqui.

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