terça-feira, dezembro 15, 2015

3 Segredos para Visitar em Marrocos - #2 Vale de Ounila

Foram 15 dias de viagem por Marrocos, cerca de 2.200 km percorridos, vendo passar pelas janelas do carro as montanhas do Rif e do Atlas, cidades enormes como Fez, Meknes, Marraquexe e Casablanca, as dunas do deserto do Saara, vales áridos, palmeirais, oásis e o mar. E sempre, sempre pessoas à beira da estrada, em movimento constante.

Olhando para trás, e apesar de toda a diversidade de paisagens que vimos, há uma estrada que, para mim, se destacou das outras e que, posso dizer, foi a minha preferida. Trata-se da estrada que atravessa o tranquilo vale de Ounila, de que nunca tinha ouvido falar nem lido em nenhum guia. Uma vez que não tinha expetativas, a surpresa e o deslumbramento foram totais.

O Ounila é um vale estreito cortado pelo rio Asif Ounila, entre as localidades de Ait Benhaddou e Telouet, a sul das montanhas do Alto Atlas. Era por aí que passava a antiga rota de caravanas que ligava o Saara a Marraquexe. Hoje, o percurso faz-se através de uma estrada em mau estado (a P1506), por onde praticamente não passam carros e muito menos turistas. Coisa rara em Marrocos, por isso há que aproveitar.

Saímos frequentemente do carro para fotografar, sem sermos incomodados. Há uma carrinha cheia de pessoas que se cruza connosco várias vezes e, já para o fim, o motorista buzina-nos sorridente e acena amigavelmente. Será que nos quer vender alguma coisa? Será que vai parar mais à frente para nos abordar? Não, era apenas um marroquino desinteresadamente simpático. Outra coisa rara.





A estrada serpenteia o rio quase seco. As suas margens estreitas são verdes, cultivadas e cheias de árvores, mas à volta tudo é árido e estéril. O rio corre fundo entre imponentes escarpas de rocha amarelada. Nalgumas dessas encostas, vêem-se construções em ruínas que se assemelham a grutas. Leio mais tarde que terão sido celeiros construídos por tribos semi-nómadas, para guardar as suas colheitas. Já na incrível cidade fortificada de Ait Benhaddou, que a UNESCO declarou Património da Humanidade, o celeiro ficava no ponto mais alto, o bem mais precioso a defender por aquelas paragens.

Nas margens do rio, vêem-se ainda várias aldeias espaçadas entre si, da mesma cor que a terra avermelhada que as rodeia, quase parecendo miragens ao longe. Daí a estrada evocar por vezes o cenário de um filme, porventura melhor do que qualquer estúdio anunciado em Ouarzazate - a Hollywood de Marrocos - não muito longe donde estamos.

Ao longo do vale de Ounila, vêem-se também muitas “kasbahs”, isto é, casas fortificadas de origem berbere, construídas com tijolos de adobe (uma mistura de terra, água e palha), muitas delas a desfazerem-se com as chuvas e a passagem do tempo. Porém, ao contrário do que tínhamos visto até aí em zonas mais turísticas, por aqui não há construções a destoar nem o mau-gosto a estragarem a paisagem.




Guia Prático

Como fomos

A maioria das pessoas que viaja entre Ouarzazate e Marraquexe opta pela estrada nacional N9, mais fácil, direta e com melhor piso. Em alternativa, nós decidimos ir de carro até à cidade fortificada de Ait Benhaddou, o grande ponto de interesse da região, e depois seguir pela P1506, ao longo do vale de Ounila. Esta estrada secundária acaba por encontrar-se com a N9 em Tizi n’Tichka, na cordilheira do Alto Atlas, a 2.260 m de altitude. Entre Ait Benhaddou e esse cruzamento são 66 km, cerca de duas horas de viagem (sem paragens).

Seja qual for o caminho escolhido, convém reservar um dia inteiro para viajar entre Ouarzazate e Marraquexe, já que a travessia do Alto Atlas é demorada.


O que visitar 

  • Ait Benhaddou: é uma tradicional povoação fortificada, ou “ksar”, construída com tijolos de adobe, destacando-se das demais da região não só pela sua localização, mas também pelo facto de estar muito bem preservada, fazendo parte da lista de Património Mundial da UNESCO.
  • Tamdaght: a poucos quilómetros de Ait Behaddou, esta pequena aldeia está cheia de “kasbahs” em ruínas. Se, por um lado, está vazia de turistas, por outro está repleta de história e tranquilidade, convidando à exploração e à aventura.
  • Telouet: situada num vale elevado nas montanhas do Alto Atlas, a 1.870 m de altitude, é a capital histórica da tribo berbere dos Glaoua. Prosperou durante séculos devido à cobrança de direitos de passagem das caravanas que transportavam ouro, sal e escravos entre o Saara e Marraquexe. Uma das suas principais atrações turísticas é o “Kasbah” de El Glaoui que, apesar de muito degradado, ainda é considerado um dos palácios mais belos da região.



Em cima: Ait Benhaddou. Em baixo: interior de uma "kasbah"

Quando ir

Nós fizemos o percurso em Outubro, quando o tempo estava ameno, e ficamos fascinados. Porém, segundo nos disseram, na primavera o vale é ainda mais bonito, quando as amendoeiras estão em flor, os campos ainda mais viçosos e a neve cobre os picos das montanhas do Atlas.

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