domingo, outubro 18, 2015

Marrocos - Diário de viagem

Dia I

Depois de uma autêntica saga de uma hora para passar com o carro pela alfândega de Tânger, várias entradas à campeão nas rotundas da cidade (que fariam qualquer taxista lisboeta parecer um menino) e por sorte dar com um mercado frenético em Tétouan, terminamos o dia em repouso na surpreendente cidade azul de Chefchaouen. Marrocos, até agora, tem sido excelente e não é apenas pela comida. Até os chatos dos vendedores temos conseguido manter sob controle.


Dia II

Chefchaouen, também conhecida apenas como Chaouen, é uma pequena cidade em que a cor dominante é o azul. Fica situada nas montanhas rochosas de Rif, onde predominam pinheiros e outras árvores pouco habituadas a temperaturas tão altas.

O calor que se tem feito sentir só dá vontade de descansar à sombra como faz este e muitos outros gatinhos. Segundo nos disse Sofia, a dona de um restaurante com o mesmo nome e que confecciona comida marroquina deliciosa, a tradição dos imensos gatos vem de um tempo em que não havia esgotos, sendo esta a única forma de combater as pragas de roedores.

“Quieres porros? Muy bueno … aqui es la capital de las gansas.” - Ou estes traficantes me acham com cara de agarrado ou de facto a venda aqui é do mais comum. Se me dessem 10 Euros por cada vez que ouvi esta frase, teria o resto da viagem paga!

Dia III

Depois de uma viagem por estradas manhosas pelo interior profundo de Marrocos, de destilar sob 36 graus na imperial Meknes, terminámos o dia em Fez e não estávamos à espera disto. Ver o video com som...


Dia IV

Fez tem uma medina medieval infernalmente labiríntica. As suas quase 1000 ruelas e becos e o frenesim constante nos mercados põem à prova a nossa capacidade de orientação. Os avanços e insistências dos vendedores e “falsos” guias desafiam os nossos nervos e a capacidade de manter a calma. Porém, não é assim tão mau como eu esperava. Ser assertivo na recusa da oferta geralmente faz com que esta não se repita. Ainda assim, devo confessar que passadas 24 horas começa a cansar um pouco.

Como pontos positivos destaco as cores, os sabores e os cheiros (nem sempre agradáveis). Os templos e as portas em estilo andaluz são impressionantes embora se tornem depressa um pouco repetitivos.


Dia V

Extremamente cansados, depois de uma viagem que levou o dia todo até às portas do deserto. Os contrastes são constantes: gente simpática e genuína que nos convida para beber chá em sua casa com a família apenas porque lhes comprámos maçãs versus gente que olha para nós apenas como portadores de notas; marroquinos conduzindo dos melhores carros que o dinheiro pode pagar versus Mercedes fabricados antes de eu ter nascido com o dobro da lotação permitida por lei; terras áridas e agrestes versus oásis verdejantes.

Dia VI

Para compensar o dia cansativo de ontem, hoje não conduzi e aguardo pacientemente à beira da piscina para mais logo trocar as 4 rodas pelas 4 patas de um dromedário. Será este o meio de transporte que nos levará para o deserto, onde iremos pernoitar numa tenda. Tinha grandes expectativas para ver e fotografar uma noite estrelada invulgar, mas o céu está nublado e suspeito que não vamos ter sorte neste sentido.


Dia VII

Depois de contemplarmos o nascer do sol no deserto, partimos em direção aos "gorges". Constatando que a estrada era transitável, acabámos por subir até Agoudal, uma pequena vila paradisíaca no meio das montanhas, onde as mulheres trabalham os campos, os homens estão sentados nos cafés a observar quem passa e as crianças cercam os turistas à procura de uma moeda ou doce. Como a estrada é mais lenta do que esperávamos, acabámos por viajar mais de duas horas já de noite (experiência terrível que evitaremos a todo o custo nos próximos dias). O alojamento foi muito difícil de encontrar: quer pela escuridão quer pelas coordenadas erradas de GPS quer pela falta de indicações. Foi graças a um simpático jovem de motoreta que nos conseguimos safar. Quando acordámos, a surpresa foi total, o alojamento é fantástico e a área circundante indescritível... Mas isso fica para outro relato.


Dia VIII

Hoje percorremos vales e montanhas, oásis de palmeiras, figueiras e amendoeiras e perdemos a conta ao número de "kasbah" (casas fortaleza) que vimos. Levámos o primeiro barrete a nível de comida (embora compensado por uma salada de fruta deliciosa). Num restaurante frequentado por locais, nitidamente nos apresentaram um preço diferente por sermos estrangeiros (nada barato inclusive para Portugal).

A técnica de aldrabar estrangeiros com uma falsa avaria na viatura continua viva. Hoje presenciámos uma situação dessas. E é este, sem dúvida, o ponto mais negativo de Marrocos para nós. Depressa nos apercebemos que sempre que alguém interage connosco é garantidamente para nos tentar vender algo ou para pedir dinheiro. Isso não é impeditivo de apreciar este país super interessante e rico em todos os sentidos. É apenas cansativo, especialmente quando se têm muitos quilómetros no corpo.

Na foto, um menino passa em cima de um burrico (meio de transporte muito usado no sul, para além da bicicleta) enquanto outros jogam à bola, em Tamnougalt.


Dia IX

Desde Ouzazarte até Marraquexe, a viagem é espetacular. No sul, os "ksars" (povoações fortificadas) transportam-nos para tempos antigos; no norte, o Atlas torna-nos pequenos e frágeis. Agora em Marraquexe, depois de sobreviver a centenas de motos loucas, estamos a jantar num restaurante fantástico (a pequena extravagância da viagem).


Dia X

Marraquexe: labirinto de ruelas sem nome, inferno caótico de motos, lugar onde parece ser crime tirar uma foto a não ser que se pague, cidade fervilhante de cor e vida.

Hoje tivemos a confirmação de que se cobram preços diferentes a estrangeiros. Numa barraquinha de comida, com base na lista que me entregaram, teria de pagar 50 MAD. Porém, uma local que estava ao meu lado pagou apenas 25.

Adorámos a praça Jemaa el-Fna ao anoitecer bem com a Maison de Photographie com uma coleção muito interessante de fotos com mais de 100 anos que retratam um país genuíno e diverso.


Dia XI

Hoje foi dia de entrar na onda de Marraquexe e deixar-me levar. Comecei por comprar uma “djellaba” berbere, a qual vesti logo de manhã. As bermudas que trazia não eram adequadas ao tempo fresco que se fazia sentir. Com aquela vestimenta ancestral, senti-me mais confortável e penso ter ganho o respeito dos marroquinos mais velhos e ter sido motivo de troça das jovens, que riam de forma dissimulada.

Andar pelos "souks" a marralhar tudo e mais um par de “babouchas” com a farda adequada faz toda a diferença. “Bonjour, monsieur berbere” - diziam-me eles em vez do habitual “buona sera”. Depois de algumas negociações, não foi dificil perceber que algo que eles pediam a 400, acabaria por ser vendido a 100!

Mais tarde, almoçámos a melhor tagine até ao momento num restaurante completamente aleatório. Por vezes, esta é mesmo a melhor maneira de se comer. Quanto mais se escolhe pior.

Para terminar a tarde em beleza, uma bola de gelado de flor de laranjeira veio mesmo a calhar. Sabor estranho que, depois de terminar, só dá vontade de repetir. Só é pena o preço destes gelados ser o mesmo de Portugal.


Dia XII

À beira da estrada entre Marraquexe e Essaouria, era suposto encontrarmos árvores de Argão repletas de cabras em equilíbrio precário. Os quilómetros passaram e de cabras nem miragens. Subitamente, vislumbro algo ao longe na enorme reta que me pareceu ser a polícia. Abrandei com receio de ser multado (já me tinham perdoado uns momentos atrás). Mas, em vez de radares, eram autocarros com hordas de turistas paradas na berma. Disse à Sofia que era ali que, de certeza, estavam as cabras, o que se veio a confirmar. Um pouco desiludido por este ser mais um cenário recriado para turista-ver, lá fui eu fotografar as equilibristas. Como não podia deixar de ser, lá estava o pastor a pedir dinheiro para ver e fotografar as bichas. Mas dinheiro a sério, porque moedas pequenas foram rapidamente rejeitadas com um ar de desdém.

O resto do dia foi passado na pequena cidade costeira de Essaouria, onde o cheiro a maresia predomina. Depois de tantos dias pelo deserto, a proximidade do mar foi bem vinda. Muito mais pacata do que as grandes cidades por onde já tínhamos passado, os vendedores são também mais calmos e nada insistentes nas vendas. Para além da marroquinaria do costume, nesta cidade predominam especiarias e “banhas-da-cobra”. Destaco, sem dúvida, o “viagra expresso feminino” e o “viagra turbo”. Se calhar, é aqui que o Futre se abastece …

Ao final da tarde, no porto, o frenesim dos pescadores a descarregar peixe só é comparável ao dos miúdos a saltar para a água a partir da muralha. Este passeio pelo porto é bem engraçado, mas nada recomendável a quem não suportar o pivete a peixe e às entranhas dos que acabaram de ser esventrados.


Dia XIII

Se há algo que eu gosto de fazer é uma viagem ao passado. Hoje calcorreei muralhas construídas pelos portugueses no século XVI em El Jadida, conhecida na altura como Mazagão. Esta pequena fortificação conseguiu ser mantida pelos nossos compatriotas até ao séc. XVIII. Desde então, tem sido sempre a decair, preservando pouco do esplendor que imagino que teria nessa altura. A cisterna manuelina, bastante bem conservada, é sem dúvida paragem obrigatória e vale bem os 10 MAD que se pagam pela entrada.

Ao fim de 13 dias, vi pela primeira vez um acidente entre uma moto e um taxista, sem danos corporais para os condutores, tendo apenas acrescentado umas amolgadelas aos veículos. Só estranho não ter presenciado mais cedo um episódio destes.

Estoirados de tanto andar a pé e pelo sol abrasador, decidimos ir descansar, até à hora de jantar, para o “riad” onde, como é habitual, impera a paz. No início da noite, a cidade ganha nova vida e animação: são multidões a comprar e a vender ou simplesmente a passear pela rua principal. Em vez de castanhas assadas, por aqui os petiscos de rua são favas e grão de bico cozido.


Dia XIV

Em Marrocos, quando se faz, faz-se à grande! É o caso da Mesquita Hassan II, em Casablanca, uma das maiores do mundo. Neste templo grandioso, impera a paz e o sossego, apenas quebrado pelas vozes dos guias e pelos turistas admirados, em contraste com o autêntico pandemónio que é o resto da cidade. Depois de uma volta mais ou menos completa ao país, foi nesta cidade que encontrámos o trânsito mais caótico! Serviu para confirmar que, por aqui, há apenas uma regra do código da estrada que é para cumprir: o limite de velocidade. Este é imposto por polícias escondidos nas sombras das auto-estradas como se de caçadores furtivos se tratassem.

O dia terminou em Assilah, uma pequena cidade já bem perto da travessia para Espanha, que faremos amanhã. Foi uma boa surpresa. A medina intra-muralhas está muito bem conservada, colorida e limpa. Parece ser porto de abrigo de artistas diversos que vão deixando as suas marcas pelas ruelas estreitas. A cada virar de esquina há sempre uma nova surpresa.


Dia XV

Voltei, voltei de lá. Ainda há pouco estava em Marrocos e agora já estou cá!

De volta a terras lusas, lembramos com saudades uma das coisas de que mais gostámos: o alojamento principesco a preços decentes para tugas.

Atravessar a alfândega foi novamente uma peripécia: imensos funcionários marroquinos que parecem nunca saber de nada misturados com outros que, não o sendo, se mostram prestáveis em troco de dinheiro, como sempre. Do lado espanhol, tudo bem sinalizado, tudo pacífico e com um número muito menor de funcionários.

Depois de atravessar a Espanha toda sob um dilúvio, chegámos a casa cheios de recordações e experiências enriquecedoras.

Viagem realizada em Outubro de 2015

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