sexta-feira, abril 24, 2015

Bardenas Reales, em busca da paisagem marciana

Se me pedissem para fechar os olhos e os abrisse nesta paisagem, não saberia onde estava. Pensaria num destino longínquo: norte de África, Estados Unidos da América talvez?

Foram as fotos que nos levaram a desejar visitar esta paisagem árida um dia. O dia, porém, não seria aquele em que chegámos, devido a uma chuva torrencial, apesar de raramente chover por aqui.

Estamos no Parque Natural das Bardenas Reales de Navarra, em Espanha. Apesar do mau tempo, aventuramo-nos até ao Centro de Informação, que fica numa das entradas desta Reserva da Biosfera da UNESCO, nas proximidades da cidade de Tudela. Não há mais nenhum carro estacionado. Mau sinal! Entramos e informam-nos que podemos visitar o parque. Momento súbito de alegria! “No entanto, as estradas são praticamente todas de terra batida e, com esta chuva, não é recomendável circular, já que podem ficar atolados”, dizem-nos.

Ainda nos aproximámos de um miradouro, mas nesse dia o fenómeno mais notável que vimos foram duas perdizes muito perto de nós, que fugiram esbaforidas.

Felizmente não fizemos mais de 900 km a partir de Lisboa para ver este parque natural. Estávamos a caminho dos Pirinéus e regressaríamos às Bardenas no final da viagem, num dia de sol radioso de início de primavera.



Uma semana depois, voltámos então ao Centro de Informação do parque, onde nos deram um mapa e nos explicaram que estamos num espaço natural protegido (faltou dizer que existe uma base militar aí instalada). Por isso, a visita só pode ser feita ao longo dos caminhos que estão assinalados para a circulação de automóveis e de bicicletas, havendo ainda três percursos pedestres possíveis.

Além disso, chegámos na altura da nidificação das aves de rapina, pelo que não podemos percorrer todo o circuito de carro. Passaremos, no entanto, por duas equipas ao longo do caminho que terão telescópios para vermos de perto alguns abutres nos ninhos.

Seguindo viagem, observo a paisagem semidesértica, modelada pela erosão durante milhares de anos, sem perceber realmente como se formaram aquelas montanhas enrugadas, aqueles planaltos surpreendentes, aquele solo irregular, com grandes sulcos curvilíneos.





A explicação e o ponto alto do passeio estariam guardados para o final, quase uma hora e meia depois.

Entre 20 a 10 milhões de anos atrás, o choque das placas Europeia e Ibérica criou três grandes cadeias montanhosas: os Pirinéus, a Cordilheira Ibérica e a Serra dos Catalánides. No meio, ficou uma grande bacia fechada, sem saída para o mar, onde chegavam os cursos de água que escorriam pelas montanhas, arrastando consigo uma grande quantidade de materiais, como areias, argilas, cascalho, etc. As atuais Bardenas, situam-se na zona central dessa grande bacia, onde durante milhares de anos se acumularam sedimentos, ao ponto de se formarem elevações, algumas com cerca de 4000 metros.

Há 10 milhões de anos, a água acumulada na bacia encontrou uma saída para o mar mediterrânico. Começou então o processo erosivo dos materiais que aí se tinham acumulado: as rochas argilosas e os sedimentos mais moles têm-se desgastado com maior rapidez, as rochas mais duras, mais lentamente.



Chama-se “castildetierra” e é o símbolo das Bardenas, por ser provavelmente a formação geológica mais invulgar do parque natural. Olhando atentamente, reparamos que no cimo da emblemática montanha argilosa existe uma rocha em equilíbrio precário. Devido à erosão, a montanha foi-se afiando cada vez mais. A rocha dura, no topo, foi-se partindo e está cada vez mais pequena.

Um dia acabará por cair.

Onde Dormir

  • Aire de Bardenas Original e futurista, este hotel recebeu inúmeros prémios internacionais de design e arquitetura. Localizado no meio de um campo de trigo, junto ao parque natural, é ideal para quem o alojamento é, só por si, uma experiência.
  • Bed4U Tudela Situado nos arredores de Tudela, é um quatro estrelas moderno, confortável e, ainda por cima, económico. Ideal para quem um hotel é essencialmente um lugar para passar a noite.

Onde Comemos

  • Trinquete. Navarra é conhecida em toda a Espanha pela qualidade dos seus produtos hortículas. Não é por acaso que, neste restaurante de Tudela, o menu de degustação seja exclusivamente composto por legumes. Estes provêm diretamente da horta dos seus proprietários e variam consoante a estação do ano. De legume em legume, somos surpreendidos não só pela sua apresentação, mas sobretudo pelos sabores que ignorávamos que pudessem ter. Uma experiência gastronómica única e deliciosa, que recomendamos vivamente. Nunca uma simples cebola nos soube tão bem...

Alguns dos pratos do "Menu Princípios de Primavera" no restaurante Trinquete, em Tudela
  • José Luis. Bastante mais em conta, este bar serve tapas sofisticadas, onde se destacam os produtos típicos da região, incluindo, claro está, as verduras. Orgulhosamente exibidas em cima do balcão, as tapas têm tão bom aspeto e sabem tão bem que apetece provar tudo.

Outros locais de interesse nas proximidades

  • Olite: uma localidade medieval com um castelo da Disney de verdade;
  • Sos del Rey Católico: encavalitada no topo de uma colina, foi o lugar de nascimento do Rei Fernando II de Aragão, o Católico. Cheia de história, faz-nos recuar no tempo de tão bem preservada que está;
  • Foz de Arbayún: desfiladeiro impressionante do rio Salazar onde podem ser observadas várias espécies de rapinas. No Outono, enche-se de cor;
  • Pamplona: capital da província de Navarra, é famosa pelas largadas de touros e pela gastronomia;
  • Laguardialocalidade vinícola, onde se guarda o vinho debaixo da terra e onde se podem visitar algumas das adegas mais emblemáticas de Espanha;
  • Saragoça: é a capital monumental da região de Aragão. Tanto a Basilica de Nuestra Senora del Pilar como o Palacio de la Aljafería são imperdíveis.

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