sexta-feira, janeiro 16, 2015

O Cebreiro e Piornedo, para nos lembrarmos de como era uma vez

O Cebreiro e Piornedo são duas aldeias remotas na Galiza, conhecidas pelas suas “pallozas”, ou seja, casas arredondadas de pedra com telhados de colmo - mas já entraremos numa delas.

O Cebreiro

A primeira aldeia fica no Caminho (francês) de Santiago, a 1300 metros de altitude. Trata-se de uma etapa dura para os peregrinos que aqui entram na Galiza e, assim, na reta final rumo a Santiago de Compostela.

Sentimos muito frio na rua, mas é a paz que nos assalta ao entrarmos na igreja pré-românica de Santa María la Real. À porta, um monge franciscano saúda-nos discretamente. Trata-se de uma igreja pequenina, do séc. IX, iluminada de forma suave, quase sem decoração.

À saída, procuro os sinos que costumavam tocar durante o inverno para guiar os peregrinos nos dias de nevoeiro. Nesta altura do ano, não devem andar por aqui, penso. Mais à frente, porém, cruzámo-nos com um casal de meia-idade com mochilas às costas e cajados. Sorrio-lhes, sem saberem como os admiro.

Prosseguimos por entre as ruelas estreitas da aldeia, cujas calçadas são de pedra como todas as paredes das casas. Não há nenhuma construção a destoar e, reparando no cuidado com que tudo é mantido de modo tradicional, podemos adivinhar que muitos turistas e viajantes passarão por aqui. Dois dias depois do Natal, somos das poucas pessoas que se vêem e a maior parte dos restaurantes está fechada.



Em poucos minutos, damos a volta à acolhedora povoação, passando por várias "pallozas" fechadas. Deixamos para o fim a única que se pode visitar, agora transformada em museu.

Curiosos, entrámos nesta casinha com telhado de palha e a primeira coisa que nos surpreende é o tamanho: por dentro, é muito maior do que imagináramos, sobretudo em altura. Aí estão pendurados uns dos poucos objectos que existem atualmente no seu interior: umas enormes estruturas de ferro que serviam para pendurar e fumar os enchidos. Do lado direito, existe uma pequena cozinha com uma lareira de pedra no chão, rodeada por bancos rústicos de madeira, com uns tampos que se baixavam para servir de mesa às refeições. Junto a ela, fica o único quarto da habitação e, do lado contrário, num nível ligeiramente inferior, a área onde se guardavam os animais, que ajudavam a aquecer a casa.

Através de alguns painéis explicativos, que os mais apressados pela vida ignoram, inteirámo-nos de alguns factos curiosos sobre as "pallozas", nomeadamente que a sua origem remonta a tempos pré-históricos, que foram habitadas até aos anos 60 do século passado e que o único quarto privado se destinava ao casal mais velho.

Quisemos ainda saber quantas pessoas é que costumavam viver nestas habitações tradicionais. Cerca de doze da mesma família, informaram-nos no museu, cuja entrada é gratuita.

Terminada a visita, fomos comer um caldo galego, uma espécie de sopa rústica de legumes, e "pulpo com cachelos" isto é, polvo com batatas cozidas, ideais para reconfortar o corpo e retemperar forças para seguirmos viagem até Piornedo, outra aldeia famosa pelas suas "pallozas".


















Piornedo

Foram cerca de duas horas por estradas sinuosas até chegarmos à segunda aldeia, contemplando paisagens montanhosas e desabitadas na serra de Ancares, ou entretendo-nos com as folhas douradas a esvoaçar poeticamente atrás do carro dos amigos que seguiam à nossa frente.

No inverno os dias são curtos. Por essa razão, não pudemos ficar muito tempo no Castelo de Doiras que descobrimos inesperadamente a meio do percurso.



Piornedo é uma aldeia muito mais rural e solitária do que O Cebreiro. Há casas modernas de cimento, mas também existem mais "pallozas". Estas não são para turista ver, sendo atualmente usadas como celeiros ou então para guardar animais, lenha e alfaias agrícolas.

Pode-se visitar uma delas, por um euro. São as netas do dono, duas adolescentes bonitas e citadinas, que nos recebem no seu interior, explicando timidamente a função de cada divisão. Se a “palloza” de O Cebreiro era grande, esta é enorme, incluindo um forno, mais espaço para os animais e um grande piso de madeira intermédio, no qual vários membros da família dormiam e onde se guardavam algumas colheitas e erva.

Além disso, nesta "palloza" manteve-se tudo como estava quando os antepassados das jovens a desabitaram nos anos 70. Quer isto dizer que o espaço está cheio, não só de objetos antigos de que a família precisava para a vida diária, mas também de ferramentas para fazer tudo aquilo que se pudesse produzir na casa, como alimentos, tecidos, vestuário, móveis, entre outros trabalhos de carpintaria.

O que me custa novamente a compreender é o número de pessoas que aí morava e sobretudo a proximidade com que o ser humano vivia dos animais, praticamente lado a lado, debaixo do mesmo teto. Imagino-me, então, a ter de sobreviver no meio das montanhas num local isolado onde não chega ninguém; onde, no inverno, o nevoeiro tapa as vistas do mundo e o frio congela o tempo. E depois entendo.











Marrun - um amigo inesperado em Piornedo

1 comentário:

  1. Que incrível! O blog de vocês é demais, já estou colocando os roteiros na lista!
    Abraços do Brasil!

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