terça-feira, janeiro 27, 2015

Na fronteira entre o Xurés e o Gerês‏

Estava o sol a pique quando estacionámos o carro junto à Barragem de Salas. O caminho que a atravessa é tão estreito que só passa um veículo de cada vez, mas que diferença faz se por aqui praticamente não circulam automóveis?

Em ambas as extremidades, duas imponentes antas não passam despercebidas ao transeunte e, na água, o reflexo quase perfeito das grandes formações rochosas existentes nas margens é apenas quebrado pelo vaivém de alguns patos. O silêncio há muito que se instalou nesta paisagem galega, situada em plena Serra do Xurés. Já há poucos lugares assim tão perto de casa, pensámos. Não muito longe, avista-se a aldeia galega de Guntumil, a meio caminho da aldeia transmontana de Tourém, pertencente por sua vez à Serra do Gerês.

“Casola do Foxo”: anta localizada junto à barragem de Salas

Cerca de 13 km serpenteiam a albufeira de Salas num trilho de BTT em terra batida designado “A Rota Megalítica”. Bem almoçados, começámo-la mesmo ali, junto à barragem. À medida que avançávamos, sentíamos o gelo a quebrar-se debaixo da terra. Embora sem pressas, rapidamente chegámos à base da aldeia de Guntumil. Nesse ponto, um desvio para Tourém fez-nos consultar novamente o mapa. Separava-nos de Portugal cerca de 1 km, pelo que era difícil resistir a uma espreitadela.

Ainda não tínhamos chegado ao centro da aldeia de Tourém e já sentíamos o seu fervilhar. Um trator atulhado parou no meio da estrada. Numa grande animação, dois homens penduraram-se no seu topo, prontos a descarregar os tojos que serviriam de cama aos animais. Mais à frente, um lavrador cumprimentou-nos e, no café, alguns clientes discutiam assuntos da bola. À medida que caminhávamos nas ruelas da aldeia, pequenos recantos despertavam a nossa curiosidade. As casas são de uma traça simples, mas estão bem arranjadas e conservadas. No centro, o forno comunitário está de portas abertas e convida a uma pequena visita. Indicações de um trilho (o do contrabando) que cruza a aldeia deixou-nos com vontade de ali voltar.









Uma vez visitada a aldeia, foi hora de seguir viagem. Desde a ponte sobre o rio Salas, a vista para a albufeira meia vazia é de uma beleza agreste, quase inóspita. Logo depois voltámos a cruzar a fronteira.



Mais à frente fica a aldeia galega de As Maus de Salas. Em contraste com Tourém, esta está praticamente deserta, fruto da forte emigração ocorrida nas últimas décadas. No centro, um recém-construído centro de BTT chamou-nos a atenção e um rapaz chamado Óscar aproximou-se, convidando-nos para uma visita às instalações. Curiosos, aceitámos. Equipado com zona de alojamento, salas de convívio e de formação, o centro – ainda por inaugurar – aguçou-nos ainda mais a vontade de regressar. Numa animada e descontraída conversa, contou-nos que fomos os primeiros portugueses a visitar o espaço, o que nos deu direito a uma receção de boas vindas. O pequeno lanche deixou-nos reconfortados para seguir viagem. Já à saída, uma última sugestão: “Visitem as poças de Bande, pois está uma noite de lua cheia fantástica. Talvez eu apareça também por lá” – disse-nos, sorrindo.

Por fim, rapidamente chegámos ao ponto onde iniciámos o nosso percurso circular. O desvio até Tourém tinha transformado o passeio de 13 km em quase 20 km, mas nem teríamos dado conta se, entretanto, não tivesse anoitecido.

Pôr do sol em As Maus de Salas

No carro, o termómetro acusava 3 ºC, mas nem a noite nem a baixa temperatura nos demoveram de rumar à aldeia de Baños, antes pelo contrário.

À chegada, depois de um desvio íngreme e não assinalado, a quantidade de rulotes estacionadas surpreendeu-nos. As pessoas sussurravam e mal se viam. O luar iluminava o local, pelo que não foram necessárias lanternas. Três “tanques” pertencentes à antiga civilização romana estão cheios de água quente com diferentes temperaturas, alimentados por nascentes fervilhantes. A temperatura dos banhos estava tão boa que não poderíamos ter terminado melhor o dia.

Se passar por lá, não se deixe intimidar pelo frio ou pela escuridão nem desista à primeira tentativa se não der com o sítio. Experimente e vai ver que ficará com vontade de repetir. GPS: 41.979202, -7.981819.

Bons passeios e bons banhos!

Mais informações:

O Centro de BTT da Serra do Xurés oferece um total de seis trilhos: cinco localizados no município de Muiños e um no município de Lobios, ambos na Galiza. Os trilhos variam entre os 6 e os 33 km de distância, sendo que o ponto mais alto atinge cerca de 1.500 metros de altitude. Junto aos centros de BTT há vários mapas com indicação dos pontos de interesse. Alternativamente, poderá também aceder à informação nos seguintes sítios:

- Centro de BTT Serra do Xurés
- Infraestruturas de apoio em As Maus de Salas

Trilhos de BTT da Serra do Xurés
Localização

Alojamento e restaurantes:

Em As Maus de Salas, poderá ficar alojado no Centro de BTT por menos de 20 EUR por noite e por pessoa. O centro serve refeições, mas é necessário reserva. Em Muiños, a oferta de restaurantes é bastante reduzida. Pergunte pela Taberna Rosália. Aí poderá “tapear” ou comer um menu completo por um preço bastante acessível. Alternativamente, poderá pernoitar na zona central de Lóbios onde a oferta de alojamento e restaurantes é um pouco mais variada – recomendamos o hotel/restaurante Lusitano.

Texto e fotos: Tânia Fontes e Daniel Ribeiro

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