domingo, janeiro 11, 2015

Costa da Morte: “Vós xa me dirán se valerá a pena”

Ainda o sol não raiava quando partimos rumo à Costa da Morte. O dia, apesar de gélido, previa-se agradável. “Coidado con o xelo na estrada” – recomendavam-nos. Seguindo os conselhos sábios da gente da terra, rumámos em direcção a Camelle, Arou, Santa Mariña e Camariñas.

Caminhos estreitos serpenteiam a costa, atravessando estas pequenas povoações compostas por casas multicoloridas que salpicam a paisagem sobranceira ao mar. A beleza do local e a serenidade do mar fazem-nos parar frequentemente e questionar se o epíteto “Costa da Morte” faz algum sentido.

Arou
Ponta do Trece e Ponta da Cagada

No pequeno porto piscatório de Santa Mariña, vários pescadores locais dedicam-se à pesca artesanal. Desde o porto, podem avistar-se as dunas do Monte Branco. Só a roda viva dos pescadores quebra a calmaria deste local. Alguns descarregam a faina, outros preparam-se para a iniciar. As águas estão aparentemente calmas, como se de um lago se tratasse, mas os rostos dos homens que aqui se encontram denunciam que este cenário é pouco habitual.

Na água, várias embarcações deambulam de um lado para o outro num compasso ritmado e quase dançante. Mais de perto, este ritmo dançante revela-se frenético. Nos barcos, são lançadas e recolhidas vezes sem conta gaiolas para a apanha do tão apreciado polvo galego, preparado nos restaurantes à “La Féria” ou à “La Gallega”.

Gaiolas para apanhar polvo

Junto à margem, o ritmo não é muito diferente. Vigiados pela polícia marítima, dezenas de mariscadores pulam de rocha em rocha para a apanha de uma das iguarias mais apreciadas na região, os percebes. Toda a família colabora. Enquanto os homens  vencem a força das ondas, as mulheres esperam-nos na margem e fazem a limpeza do marisco.

Mariscadores em Múxia

À saída do pequeno porto de Santa Mariña, um desvio à direita conduz-nos até ao Cabo Vilán, por uma estrada florestal de terra batida que serpenteia toda a costa. Pelo caminho é obrigatória a paragem num dos lugares mais fatídicos da Costa da Morte, o cemitério dos ingleses, onde jazem 172 marinheiros naufragados, em 1890, num dos muitos navios que aqui se afundaram.





O caminho florestal pouco acidentado e quase sem circulação automóvel – pelo menos no Inverno – é convidativo para uns passeios de bicicleta. Seguindo até à lingueta do Cabo Vilán, várias praias desertas de água azul turquesa convidam a banhos.

Enseada Arneliña

Já perto do Cabo Vilán, recordámos o entusiasmo do dono do hotel onde pernoitámos na noite anterior e os seus conselhos duplamente repetidos. “Vós xa me dirán se valerá a pena”, dizia.  Sorrimos um para o outro, pois aquele não tinha sido o nosso plano inicial que incluia ir apenas a Múxia e ao Cabo de Finisterra. Sim, tinha valido muito a pena.

Cabo Finisterra visto desde Ézaro

Com a fome a apertar, recordámos novamente o conselho de que “en Camariñas cómese moi ben”. Não hesitámos e seguimos nessa direcção. Não poderíamos deixar a Costa da Morte sem provar a Caldeirada à Galega, de modo que esse foi o nosso prato de eleição. Regado por um Ribeiro branco, podemos no final agradecer e dizer: “Estaba todo moi bo. Volveremos!...”.

Caldeirada à Galega
Mapa da Costa da Morte

Texto e fotos: Tânia Fontes e Daniel Ribeiro

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