domingo, fevereiro 02, 2014

Três Dias no País Basco

Há muito tempo que planeávamos visitar o País Basco. Por isso, apesar de ser dezembro, resolvemos viver o desejo. Ainda bem que o fizemos porque, ao contrário do que pensávamos, não choveu e o frio (com várias camadas de roupa, confesso) não era penoso. É engraçado como chegamos sempre à mesma conclusão nas viagens que fazemos no inverno: não podemos deixar de viajar por causa do tempo, porque no final vale sempre a pena.

Agasalhe-se bem, leve um bom impermeável, gorro, luvas e vai ver que não se vai arrepender.

Eis alguns dos locais que visitámos nos três dias que passámos em Euskadi, como os bascos chamam orgulhosamente ao seu país:

1. Portugalete





Portugal-ete... Será que está relacionado com Portugal? A menina do posto de turismo sorriu-nos, adivinhando que seríamos portugueses. Há várias teorias para explicar a origem do nome, disse. Dessas apenas retive a que mais me convenceu: que Portugalete significaria puerto de galeotes, ou seja, porto de galés. Não é o porto, porém, a principal atração da cidade nem a que foi reconhecida como Património da Humanidade pela UNESCO. A sua fama deve-se antes a uma ponte: a Ponte Suspensa da Biscaia. Inaugurada em 1893, em plena época industrial, trata-se da primeira ponte metálica de transbordo do mundo. Foi construída pelo engenheiro Alberto de Palacio, discípulo do criador da Torre Eiffel. A travessia para Getxo, na outra margem, faz-se através da plataforma que se vê na foto, onde cabem vários carros e pessoas. Se experimentámos? Tinha de ser, depois de passearmos um pouco pelo encantador e colorido Portugalete. E aí vamos nós, a caminho de Gaztelugatxe...

2. San Juan de Gaztelugatxe





A cerca de 35 km de Bilbao, fica um dos lugares mais marcantes da Costa da Biscaia, sobre o qual já escrevemos aqui. Trata-se de um ilhéu, no cume do qual se ergue uma ermida do séc. X dedicada a São João Batista. A caminhada até ao topo é uma aventura, descendo primeiro uma colina, passando depois por uma ponte estreitinha de pedra onde as ondas nos salpicam e, por fim, força nas pernas, são 200 degraus até ao topo. Aí chegados, vale a pena dar uma volta para contemplar as vistas e, por que não, tocar o sino da igreja três vezes? Pode ser que a lenda seja verdade e o seu desejo se realize.

3. Bosque de Oma





Já viu um bosque pintado? A ideia foi do artista basco Agustín Ibarrola que, em 1984, decidiu criar uma obra de arte ao ar livre, pintando várias árvores com cores vibrantes. O facto de se ter de andar a pé 3 km (que parecem mais) pelo meio da floresta até se verem as primeiras árvores pintadas significa que terá sossego para as ir descobrindo e para se surpreender com os olhos, arco-íris e linhas que formam figuras na paisagem.

4. Bilbao



A primeira vez que fui à capital da Biscaia, uma das três províncias que compõem o País Basco, foi há cerca de 20 anos. Recordava uma cidade escura e, como não poderia deixar de ser, o grandioso Museu Guggenheim. Entretanto, li que, impulsionada pela obra de Frank Ghery, a cidade se tinha revitalizado e enchido de obras de arte e arquitetónicas. Infelizmente, como não dispúnhamos de muito tempo, o único edifício que visitámos foi o Guggenheim. Como os gostos não se discutem, não me vou pronunciar sobre as obras de arte no seu interior (ficará ao critério de cada um apreciá-las). No exterior, e por isso sem custos, destaco as seguintes esculturas: Puppy, um cão enorme formado por flores, do norte-americano Jeff Koons; as tulipas coloridas de inox, do mesmo artista, que podem ser vistas numa das varandas do museu e, por fim, a aranha Mamá, com mais de 10 metros de altura, que a francesa Louise Bourgeois dedicou à sua mãe.

5. San Sebastián





Chegámos a San Sebastián, à qual os bascos chamam Donostia, já ao final do dia. Depois de um passeio breve pelas suas avenidas longas e elegantes, ainda fomos a tempo de ver um pôr-do-sol inesquecível na imensa baía de areia branca, que é o principal cartão de visita da cidade. Daí rumámos para a zona colorida do porto, com antigas casas típicas de pescadores, onde sabe bem callejear. A curta distância, fica a parte velha da cidade onde as ruas estreitas estão cheias de restaurantes e bares. Ao espreitar, terá de se esforçar para não ficar de boca aberta perante os balcões repletos de deliciosos pintxos, as iguarias bascas de que falarei mais adiante.

6. Hondarribia





Eis a minha cidade basca preferida. Gosto de terras pequenas bem cuidadas, que não sejam demasiado turísticas. Gosto de casas típicas e coloridas, de ruas empedradas e estreitinhas, de cantos e recantos onde se escondem pequenos pátios. Gosto de não saber o caminho e de me perder de surpresa em surpresa. Hondarribia é uma terra assim. Na parte alta, entre muralhas, situa-se a zona aristocrática, o imponente castelo de Carlos V e casas vistosas com balcões de madeira de diversas cores; em baixo, à beira mar, fica o Barrio de la Marina, ou seja, a zona que era dos pescadores, onde as casas são mais pequenas, mas tão ou mais coloridas.

7. Laguardia




Laguardia é outra cidade medieval do País Basco, esta cercada por muralhas e rodeada por vinhas. Ainda restam duas torres do castelo medieval do séc. X e é um prazer percorrer as muralhas e as ruas empedradas. A principal curiosidade reside, porém, debaixo da terra. Aí escondem-se vários túneis e câmaras que, segundo se crê, serviram inicialmente de refúgio contra as investidas do inimigo. Mais tarde, descobrindo-se que eram excelentes para fermentar o vinho, transformaram-se em adegas, onde ainda hoje se guarda o famoso vinho local da Rioja.

Algumas delas são visitáveis mas, a alguns quilómetros de distância, vale também a pena conhecer algumas das adegas mais avant-garde de Espanha, como as Bodegas Marques de Riscal, da autoria de Frank Ghery (o mesmo que desenhou o Museu Guggenheim de Bilbao) e as Bodegas Ysios, de Santiago Calatrava.

Bodegas Marques de Riscal
Bodegas Ysios

8. Parque Natural de Gorbeia

Cerca de 25% do território do País Basco são zonas naturais protegidas. O Parque Natural de Gorbeia é a maior delas todas, com uma área aproximada de 20 mil hectares. Eis o nosso desafio: o que visitar nas três horas que tínhamos disponíveis antes do sol se pôr?



Consultados rapidamente os guias, dirigimo-nos para a parte norte, cuja descrição usava palavras mais espetaculares. Contudo, enquanto o carro subia pelas montanhas, passávamos por um número crescente de caminhantes em direção contrária, o que nos deixava cada vez mais convencidos de que era demasiado tarde para qualquer visita. Ainda assim, deu para fazermos uma caminhada de duas horas, cujo ponto alto, para mim, foram as árvores enormes, quase místicas, que encontrámos.

E ainda: Txikiteo e Txacoli

Uma boa maneira de conhecer o País Basco é através da gastronomia. San Sebastián, por exemplo, é uma das cidades com maior número de estrelas Michelin do mundo. Se o seu orçamento não der para tanto, faça como a maioria dos Bascos: vá aos pintxos.

O txikiteo consiste em ir de bar em bar, provando pintxos e bebendo uns copos. Os pintxos (parentes locais das tapas) são fatias de baguete cobertas com produtos essenciais da gastronomia espanhola. Custam entre dois e três Euros e podem-se comer frios ou quentes. Os bascos expõem-nos com orgulho nos balcões dos bares e tascas. Por isso, esta é também uma boa forma de descobrir os centros históricos das localidades, partilhando, ao mesmo tempo, da cultura gastronómica local.

Para acompanhar os pintxos, sugerimos-lhe o txakoli, um delicioso e refrescante vinho branco local, semelhante, na minha opinião, ao vinho verde português.



Por isso, já sabe: se, ao contrário de nós, tiver azar com o tempo durante a sua viagem ao País Basco, não se preocupe, pois há um mundo inteiro por descobrir dentro de portas. Sobretudo, não deixe de viajar com medo da chuva, porque vai ganhar muito mais do que se ficar em casa.

"Eskerrik asko, Euskadi!" Ou em português: "Obrigada, País Basco!" Espero regressar em breve.

0 comentários:

Enviar um comentário