sexta-feira, agosto 30, 2013

Viagem Inesquecível (parte 2)

Na Garganta do Tigre que Salta (Tiger Leaping Gorge)

O percurso a pé nas montanhas foi previa e minuciosamente preparado. Deixámos a cidade de Lijiang, tomámos um táxi e seguimos para Qia ó Tóu, uma pequena povoação, onde nos separámos.

Os meus filhos, à solta, iriam percorrer um trilho paralelo ao rio do desfiladeiro “Tigre que Salta”, também Património da Humanidade, com cerca de 15 km de extensão.



Nós, fechados no mesmo táxi, prosseguimos viagem até ao albergue “Chateau of Woody”, onde estava previsto encontrarmo-nos de novo, no dia seguinte. Que sufoco! A estrada de terra batida era estreitíssima, entalada entre altas montanhas que pareciam tocar o céu de um lado e precipícios infernais do outro.



Tacteando, contornando pedras e pedregulhos caídos da montanha, sempre com o credo na boca, conseguimos chegar ao albergue. Ao contrário do que o nome poderia fazer crer era, como não podia deixar de ser, um simples abrigo igual a outros estrategicamente distribuídos pela montanha para albergar os pedestrianistas que optavam por fazer o trilho em dois dias, aliás recomendável.

O tempo que aqui passámos foi bem preenchido. Numa primeira caminhada, descemos até ao rio para descarregar a tensão da viagem. Inspirámos fundo. A absorção da espuma que se levantava do turbilhão das águas ajudou a relaxar.

De tarde, subimos à montanha para conhecer a aldeia, a sua gente, os seus costumes. Assistimos à matança de um porco; vimos outros em cortes escavadas no chão sem qualquer cobertura; vimos espigas de milho a secar pendentes em “eiras” suspensas, presumo que por falta de terreno plano.





Bem lá no alto, descobrimos a escolinha. Era hora do recreio. Quando nos viram, os meninos ficaram espantados. Acenei-lhes em jeito de saudação e corresponderam. Aproximei-me para os afagar e, então, sorriram envergonhados. Alguns deles correram à sala e trouxeram desenhos para me oferecer. Senti-me desarmada, com pena de nada ter para retribuir. Entretanto, o professor chamou-os, disseram-me adeus e entraram.



Já no regresso, ao chegar à estrada, descobri uma lojinha muito tosca, onde havia apenas água e bolachas. Ao vê-las, lembrei-me dos meninos. Comprei todos os pacotes que havia, com o propósito de no dia seguinte voltar à escola para fazer a distribuição. Assim foi. Quando cheguei, estavam na sala de aula, fiz sinal ao professor que, percebendo a minha intenção, deu-me licença para entrar. Pus em cima de cada mesa um pacote. Os meninos sorriram. Sobrou um. Ao abri-lo para distribuir bolacha por bolacha, reparei que não estavam em bom estado. Mostrei-as ao professor e passei outra vez pelas mesas para as recolher.

Saí a correr, entalada com um nó na garganta, parecendo-me ouvir a lenga-lenga que na minha infância, em situações idênticas, costumavam repetir em coro, ameaçadoramente: quem dá e tira para o Inferno gira, quem dá e tira para o Inferno gira...

Texto da autoria de Jacinta Ribeiro

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