terça-feira, agosto 20, 2013

Rota do Cares, a caminhada a fazer nos Picos da Europa

Os Picos da Europa, um dos parques nacionais mais visitados de Espanha, ficam no norte do país vizinho, a cerca de 800 km de Lisboa, 500 do Porto. Como o nome indica, são montanhas rochosas que se erguem em picos para além das nuvens, montanhas que escondem desfiladeiros profundos, rios de águas límpidas, prados frescos onde se ouve o chocalhar de vacas à solta, lagos espelhados de céu, casas com sardinheiras a enfeitar as janelas, assim como alguns dos queijos mais saborosos de Espanha.

Uma das melhores formas de explorar a região é a pé, havendo diversos percursos bem assinalados ao longo do parque.

Quem nunca visitou os Picos, sentir-se-á provavelmente assoberbado com a quantidade de trilhos existentes e indeciso na hora da escolha.

Há, no entanto, um percurso acessível a qualquer pessoa (mesmo sem experiência em caminhadas) que é obrigatório pela sua singularidade e paisagens inesquecíveis: a Rota do Cares, em pleno parque nacional.



O nome deriva do rio Cares, uma presença constante ao longo dos 24 km do trajeto (ida e volta) que separam os povoados de Caín e Poncebos, nas províncias de León e Astúrias, respetivamente. Se quiser, poderá fazer apenas metade do percurso, mas terá de providenciar transporte a partir de uma destas localidades, separadas por 100 km de estrada (aproximadamente 3 horas de viagem).

Provavelmente está a questionar-se: 24 km? Conseguirei andar tanto a pé?

Com excepção de 2 km de subida no início do trilho do lado de Poncebos, a rota é plana e faz-se ao longo de um caminho estreito de terra batida que serpenteia ao lado de uma garganta profunda - a Garganta Divina - no fundo da qual corre o Cares como um fio de água.

A maior parte das vezes, andará entre uma parede de pedra rija de um lado e encostas escarpadas abertas sobre o abismo do outro, mas também passará por algumas pontes, miradouros naturais e túneis escavados na pedra.

As vistas vertiginosas sobre desfiladeiros profundos, entre montanhas com uma altitude de mais de 2000 metros, são fabulosas.

A totalidade do percurso (ida e volta) demora 6/7 horas, podendo descansar e comer nas localidades de Caín ou Poncebos, dependendo do local onde iniciou a rota.



Nós partimos de Caín, um pequeno e acolhedor povoado, rodeado por montanhas imensas, à qual se acede por uma estrada estreita cheia de curvas que, por si só, é uma aventura.

Chegámos à hora de almoço e, seguindo a pé as indicações para a “Ruta del Cares”, fomos ter a uma ruela onde se situavam dois ou três restaurantes. Arriscámos e entrámos no primeiro, onde nos sentámos numa esplanada com mesas compridas e bancos corridos.

Que boa escolha! O entrecosto de vitela grelhado estava uma delícia e encheu-nos de força e boa disposição para a caminhada.

Enquanto comíamos, observávamos deliciados os caminhantes que partiam cheios de energia e os que chegavam a Caín: uns quebrados e visivelmente cansados, outros aliviados por terem superado o desafio, outros contentes por irem almoçar ou simplesmente por estarem ali, tudo naquela lengalenga bem-disposta e barulhenta dos espanhóis.



Seguiu-se a nossa vez de pôr os pés ao caminho, dando início àquela que viria a ser uma das melhores caminhadas que fizemos.

Já recuperada de uma queda aparatosa em Pontevedra, Galiza, que me deixou a mancar durante alguns dias, deixámos Caín, galinhas e gatos para trás. Primeiro, passámos por campos repletos de verde ao lado do rio Cares, depois atravessámos uma ponte, até o trilho - cada vez mais estreito - se começar a cavar na pedra e as paredes escarpadas se sucederem umas às outras.

Provando que a rota é para todos, cruzámo-nos com crianças, jovens, pessoas de meia-idade, outras mais velhas, famílias inteiras, pessoas magras, outras fortes, que nos cumprimentavam com um Holla! entusiasmado.

Ao longo dos caminhos vertiginosos também passámos por umas criaturas curiosas que nos observavam impávidas em cima de penhascos, com um olhar dócil e sem qualquer medo das alturas.

Por haver tantas, a cabra é o símbolo dos Picos da Europa

Painéis explicativos fizeram-nos ainda refletir sobre a história da Rota do Cares e admirar os cerca de 500 homens (11 dos quais perderam a vida) que a abriram na pedra para construir um canal de alimentação da central hidroelétrica de Camarmeña-Poncebos entre 1916 e 1921. Os melhoramentos desse caminho entre 1945 e 1950 resultaram no trilho que hoje é percorrido por milhares de turistas todos os anos.

O clima nos Picos é bastante instável e apanhámos alguns aguaceiros durante a caminhada, pelo que é aconselhável levar um impermeável.

No regresso a Caín, as nuvens adensaram-se e o céu ficou mais escuro. Os chuveiros tornaram-se mais frequentes, o que nos obrigou a acelerar o passo a um terço do final do caminho. Até que, quando já estávamos na zona dos prados junto dos quais corre o Cares, desabou sobre nós uma chuva fortíssima, que nos obrigou a fazer o último quilómetro até Caín a correr.



Encharcados, já sem forças para correr mais, entrámos no primeiro hotel que nos apareceu e tomámos então, de impulso, uma decisão que viria a ficar guardada para sempre nas nossas memórias: não iríamos embora de carro nessa noite; ficaríamos a dormir naquele povoado isolado mas acolhedor, no coração dos Picos da Europa. Assim foi. Disseram-nos que havia quartos vagos, tomámos um banho de água quente e descemos para o restaurante.

Sentados na esplanada, a comer uma tábua de queijos das Astúrias, rodeados pela beleza agreste das montanhas, a ver a chuva a cair, ainda hoje dizemos um ao outro, quando estamos fartos da rotina do dia-a-dia, que queremos voltar a Caín.

Plataforma para os salmões subirem o rio Cares

Não esquecer de levar

  • Bom calçado para caminhar, de preferência botas (para suportar as pedras que salpicam a rota e não derrapar)
  • Chapéu de sol (com excepção dos túneis, não há sombras ao longo do caminho)
  • Protetor solar
  • Água
  • Algo para comer (por exemplo, barritas energéticas ou fruta) 
  • Impermeável para a chuva
  • Agasalho para o frio

Melhor época do ano para fazer a rota

  • Verão (chove menos)
  • Evitar, no entanto, o mês de Agosto e fins de semana, quando há muitos caminhantes

Veja também

2 comentários:

  1. Durante os meses de julho e agosto existe um serviço de transporte com autocarros entre Cangas de Onís e Caín, e entre Poncebos e Cangas de Onís. Isso permite fazer o percurso mais curto, de só 12 km, sem ter de voltar. O autocarro deixa os passageiros ao começo da rota e apanha aos caminhantes no fim do caminho. O preço é muito baixo: 12 euros ida e volta.

    Aguardo uma nova visita.

    www.cangasdeonis.net
    www.cangasdeonisycovadonga.com
    www.todoportugal.blogspot.com

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado pelas sugestões Francisco. Temos de voltar sim, já temos saudades :)

      Eliminar